Política sem teorias

Folha de S. Paulo

THAIS ARBEX
REINALDO JOSÉ LOPES

 “Também lamento muito pela menção negativa à sociologia. Quanto mais estudo, mais compreendo que as ciências humanas são fundamentais”, disse a presidente da SBPC, bioquímica Helena Nader.

Durante a última reunião com seu secretariado, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), criticou a Fapesp (Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo), principal órgão de financiamento à ciência no Estado, por priorizar estudos sem utilidade prática.

Pensador, personificação da filosofia (Wikipédia)

A informação foi revelada pela coluna Radar On-line, da “Veja”. Segundo a revista, Alckmin fez críticas à falta de apoio a estudos para o desenvolvimento da vacina da dengue e também ao incentivo a pesquisas de sociologia.

A Folha confirmou a fala do governador, que disse que a Fapesp vive numa bolha acadêmica desconectada da realidade, financia estudos que muitas vezes não têm nenhuma serventia prática e gasta sem orientação maior. Procurado, o Palácio dos Bandeirantes não quis comentar.

Os dados oficiais sobre o destino dado às verbas da Fapesp em 2015, porém, não corroboram a afirmação de Alckmin de que o órgão privilegia projetos de sociologia ou “projetos acadêmicos sem nenhuma relevância”.

Do total de desembolsos (R$ 1,18 bilhão), apenas 10% foram destinados à área de ciências humanas e sociais (excluindo arquitetura e economia, que recebem, somadas, pouco mais de 1% do total). Quase 30% dos gastos do órgão em 2015 foram destinados a pesquisas na área de saúde (veja infográfico).

Embora o governador tenha condenado a suposta falta de apoio da Fapesp ao desenvolvimento da vacina da dengue no Instituto Butantan, a fundação desembolsou cerca de R$ 2 milhões para custear esses estudos entre 2008 e 2011.

Logo depois que a associação entre o vírus zika e o surto de microcefalia em bebês brasileiros foi detectada, o órgão aprovou recursos adicionais da ordem de R$ 500 mil para projetos de virologia já em andamento que pudessem investigar o mistério.

Neste ano, em parceria com a Finep (órgão federal), a Fapesp lançou um edital no valor de R$ 10 milhões para pequenas empresas que busquem desenvolver tecnologias contra o zika e o mosquito Aedes aegypti.
Procurada, a Fapesp preferiu não comentar as críticas feitas por Alckmin.

PESQUISA BÁSICA

“Eu sinceramente espero que essa declaração tenha sido citada fora de contexto, porque ela não é compatível inclusive com a formação acadêmica e com o histórico do governador”, disse à Folha a bioquímica Helena Nader, presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), que declarou estar “chocada” com as críticas de Alckmin à Fapesp.

A pesquisadora lembrou que descobertas que estão na base da biotecnologia moderna, como a decifração da estrutura em dupla hélice (ou “escada torcida”) do DNA, em 1953, não pareciam ter nenhuma aplicação prática quando foram feitas. “Também lamento muito pela menção negativa à sociologia. Quanto mais estudo, mais compreendo que as ciências humanas são fundamentais”, disse Helena.

Para Ana Lúcia Vitale Torkomian, diretora executiva da Agência de Inovação da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), a dicotomia entre pesquisa aplicada (que supostamente “serve para alguma coisa”) e pesquisa “puramente acadêmica” é falsa.

“Nenhum país é capaz de sustentar o desenvolvimento tecnológico a longo prazo sem pesquisa básica forte”, afirma ela. “Além disso, hoje a distância entre a pesquisa básica e a inovação tecnológica está muito mais curta, as descobertas ganham aplicações com maior velocidade.”

Ela cita o fato de que, na UFSCar, as pesquisas em química e física (em tese, puramente “acadêmicas”) estão entre as que mais rendem patentes, ou seja, ideias prontas para serem transformadas em produtos.

O governador “parece estar mal assessorado, mal informado ou ambos”, disse à Folha o sociólogo Rodrigo Augusto Prando, professor do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas da Universidade Presbiteriana Mackenzie. “Os políticos usam e abusam de conhecimentos oriundos da sociologia em suas estratégias de campanha e suas ações públicas.”

Para Prando, não se pode descartar a possibilidade de que o governador tenha “sutilmente” ironizado Fernando Henrique Cardoso, um do principais sociólogos do país e oponente do governador dentro do PSDB.

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Universidade para quê?

Folha de S. Paulo/Opinião

ODED GRAJEW – As universidades brasileiras reúnem em seu corpo docente e discente (professores, alunos e pesquisadores) uma boa parte dos talentos de nossa sociedade.

O conhecimento acadêmico se espalha em inúmeras áreas: saúde, educação, habitação, transporte, economia, ciência em geral, produção, administração pública e privada, direito público e privado, urbanismo, entre outros.

Muitas dessas universidades têm parcerias internacionais que facilitam a relação entre alunos e professores. Mas essa imensa riqueza de conhecimento, esse fantástico potencial, tem contribuído em sua plenitude para melhorar o país? Acredito que não. Sabemos que uma boa parte da produção científica não ultrapassa os muros da academia.

A grande maioria de nossas lideranças políticas é constituída de pessoas com poder de mobilização, de articulação e de comunicação, o que lhes permitiu, com carisma e faro, galgar posições na hierarquia política partidária e ganhar eleições. Entretanto, ao serem eleitos, deparam-se com o desafio de colocar em prática suas propostas.

A formação das equipes –ministros, secretários, assessores e segundo escalão– é pautada muitas vezes por acordos partidários e por compromissos assumidos com os apoiadores da campanha eleitoral. Em geral, as equipes não são constituídas por pessoas com notório saber de suas áreas.

Os baixos salários da administração pública inibem e acabam por afastar os grandes talentos, já que estes conseguem uma remuneração muito maior na iniciativa privada. Por isso, muitos administradores e dirigentes públicos enfrentam grande dificuldade para contratar gente competente.

Não é por acaso que no Brasil, país com uma das maiores cargas de impostos do mundo, as políticas públicas são, em geral, de muito baixa qualidade. Tanto é que as pessoas de maior renda recorrem a serviços privados.

Os conhecimentos acumulados nas universidades brasileiras poderiam dar uma enorme contribuição para melhorar a qualidade dos nossos serviços públicos. As eleições municipais de 2016 oferecem essa oportunidade. Cada universidade poderia mobilizar seus professores, pesquisadores e alunos para produzir propostas que beneficiem suas cidades, as cidades vizinhas e até mesmo todas as cidades do país.

Essas propostas, nas áreas de educação, saúde, mobilidade, habitação, planejamento urbano, meio ambiente, cultura, esporte, energia, crianças e adolescentes, economia e tantas outras, seriam apresentadas, por meio de seminários e outras atividades, à sociedade, aos meios de comunicação e a todos candidatos e partidos.

O debate político teria, assim, maior conteúdo, fugindo da superficialidade e do casuísmo habituais. Após as eleições, as universidades poderiam, e até deveriam, se tornar parceiras dos eleitos para implementar tais ideias.

Ao colocarem a diversidade de seus ricos conhecimentos a serviço da sociedade, as universidades cumpririam mais amplamente a missão primordial de serem parceiras na construção de um país melhor para todos.
A eleição deste ano é uma ótima oportunidade para que o saber acadêmico se torne prática nas políticas públicas das próximas administrações municipais.

ODED GRAJEW, 71, é coordenador geral da Rede Nossa São Paulo e presidente emérito do Instituto Ethos. É idealizador do Fórum Social Mundial. Foi assessor especial do presidente da República em 2003 (governo Lula).

Campanha para privatizar USP

Folha de S. Paulo

Mensalidade na USP poderia ser paga por 60% dos alunos

ÉRICA FRAGA
FÁBIO TAKAHASHI

Seis em cada dez alunos da graduação da USP têm condição econômica para pagar mensalidade, segundo critérios do Prouni (programa federal de bolsas em faculdades privadas).

A arrecadação anual da maior universidade pública do país poderia aumentar R$ 1,8 bilhão, caso fosse adotado um modelo que combinasse cobrança na graduação e pós-graduação e concessão de bolsas para estudantes da graduação.

O cálculo leva em conta uma mensalidade próxima ao valor médio cobrado pela PUC-Rio (R$ 2.600), melhor instituição superior privada do país segundo o RUF (Ranking Universitário Folha).

Folha de S. Paulo

Conselho impõe mais aula prática na pedagogia de USP, Unesp e Unicamp

 

Cursos para formar professores para o ensino básico são criticados por terem hoje muita teoria. Descumprimento pode impedir faculdade de emitir diploma; universidades pedem alteração na regra

FÁBIO TAKAHASHI

O Conselho Estadual de Educação decidiu obrigar USP, Unesp e Unicamp a mudarem seus currículos dos cursos de pedagogia e licenciatura, que formam professores para o ensino básico.

O órgão exige que esses cursos deem mais atenção às atividades práticas do magistério. A norma reflete críticas de educadores e de gestores de que os professores da educação básica recebem uma formação excessivamente teórica na universidade.

O conselho impõe o aumento da carga horária para estágios e disciplinas sobre a prática escolar, além da inclusão na grade de conteúdos básicos como português. A deliberação, de 2012, exigia que o novo modelo fosse implementado já em 2013.

As universidades pediram que a norma fosse revogada. Como não foram atendidas pelo órgão, solicitaram diversas alterações e mais prazo para implementação. O conselho agora analisa esses pedidos, mas já começou a tomar medidas: renovou a autorização de funcionamento de um curso de licenciatura em filosofia da USP por apenas um ano, em vez dos tradicionais cinco.

O curso tem até outubro para apresentar o novo currículo, sob risco de a renovação ser negada pelo conselho. Sem autorização, não é possível conceder diplomas. Mais 15 cursos das três universidades devem ter de passar pelo processo de reavaliação neste ano. Caso não façam a modificação, também podem ficar sem autorização.

“Compreendemos que as discussões nas universidades passam por diversos conselhos, mas a deliberação é de 2012, e elas fizeram pouco”, disse a presidente do Conselho Estadual de Educação, Guiomar Namo de Mello. “Queremos que os professores saibam mais do conteúdo a ser ensinado e que tenham mais conhecimento de como ensinar”, completou.

O conselho é responsável pelas normas das universidades estaduais e municipais. Tornar ou não mais práticos os cursos que formam professores é um dos principais debates no país sobre qualidade de educação. O Saresp, exame estadual, mostra que 40% dos alunos se formam no ensino médio público sem os conhecimentos adequados em português.

Gestores como o secretário estadual de Educação, Herman Voorwald, e o ex-ministro Aloizio Mercadante já reclamaram publicamente do excesso de teoria na formação de docentes. Coordenadores dos cursos rebatem as críticas e dizem que a teoria é importante para o professor refletir sobre o trabalho e corrigir ações.

Produtivismo acadêmico está acabando com a saúde dos docentes

Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior – ANDES-SN


A quarta mesa do Seminário Ciência e Tecnologia no Século XXI, promovido pelo ANDES-SN, novembro do ano passado em Brasília, debateu o “Trabalho docente na produção do conhecimento”. As análises abrangeram tanto a produção do conhecimento dentro da lógica do capitalismo dependente brasileiro, até o efeito do produtivismo acadêmico na saúde dos docentes.

Participaram dessa mesa, o ex-presidente do ANDES-SN e professor do departamento de educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Roberto Leher; a assistente social e também professora da UFRJ Janete Luzia Leite; e a professora visitante do curso de pós-graduação em serviço social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro Maria Ciavatta.

Leher iniciou sua fala lembrando que a universidade brasileira, implantada tardiamente, tem sua gênese na natureza do capitalismo dependente brasileiro. E é essa matriz que vai determinar o conhecimento gerado academicamente. “Também não podemos esquecer que a produção do conhecimento tem sido re-significada. Hoje, não há mais a busca da verdade, mas, sim, a sua utilidade. Sem contar que o conhecimento é uma forma de domínio, como já disseram Kissinger, Fukuyama e Mcnamara”, argumentou.

“Diante disso, está fora de lugar a perspectiva de que a universidade tem um caráter iluminista. Àquela aura do professor universitário intelectual não mais se sustenta”, constatou.

Para Leher, antes havia a valorização da cultura geral, em que era comum encontrar um físico escrevendo sobre arte. Essa ideia, no entanto, não ocorre mais na universidade submetida à lógica utilitarista e pragmática. “É a expropriação do trabalho acadêmico”, criticou.

No Brasil, esse processo foi iniciado com a ditadura militar, que centralizou no Ministério do Planejamento os programas de apoio científico e tecnológico. Como o governo precisava direcionar a inteligência na perspectiva desenvolvimentistas do país, mas queria silenciar a universidade, passou a utilizar-se dos editais para direcionar as pesquisas.

Desde então, mas, principalmente, a partir de 2000, a maioria dos recursos destinados à pesquisa foram se deslocando para o que passou a ser chamado de inovação. A hipótese de Leher é de que como Brasil é dependente e como os doutores formados nas universidades não conseguem empregos na iniciativa privada, a universidade está sendo re-funcionalizada para fazer o serviço que as empresas não querem fazer.“Isso se dá nas ciências duras, mas também nas ciências sociais. É o que explica, por exemplo, o tanto de editais para formar professores à distância, ou para fazer trabalho nas favelas. É a universidade oferecendo serviços”, exemplificou.

“Diante dessa pressão em oferecer serviços, em produzir, o professor que levar dois anos para concluir um livro é expulso da pós-graduação”, denunciou Leher.

A saída para essa situação está na aliança do movimento docente com os movimentos populares. “Ao contrário do que ocorreu em épocas anteriores, em que parcelas da burguesia apoiaram projetos de uma universidade mais comprometida com os povos, hoje eles estão preocupados em inserir cada vez mais a instituição na lógica do mercado”, constatou. “Temos, portanto, de construir um arco de forças políticas no movimento anti-sistêmico, ou seja, com movimentos como a Conae e o MST”, defendeu.

Esse diálogo vai exigir da academia, no entanto, um esforço epistemológico e epistêmico. “Se queremos o MST como aliado, por exemplo, temos de produzir conhecimento que trate, por exemplo, da agricultura familiar”, argumentou.

Qualidade no ensino
A professora Maria Ciavatta também criticou o produtivismo acadêmico ao qual estão submetidos os docentes universitários. “Numa recente publicação do ANDES-SN, li a seguinte frase, que reflete muito bem o atual estado em que nos encontramos: ‘antes, éramos pagos para pensar, agora, somos pagos para produzir’. Achei essa definição ótima”, afirmou.

Ciavatta argumentou que a baixa qualidade do ensino decorre, diretamente, da insuficiência de recursos, responsável pelos baixos salários pagos aos professores. Disse, também, que o Brasil não tem políticas públicas para educação, mas programas de governo.

Ela criticou veementemente o Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico) do governo federal. “O discurso é o mesmo dos anos 90, de que precisamos treinar os jovens pobres porque eles precisam de trabalho. Ocorre que esses jovens, por não saberem o básico, também não aprenderão nada nos cursos técnicos”, previu.

“O que temos de defender é a universalização do ensino médio público, gratuito, de qualidade e obrigatório. Temos de responsabilizar o Estado nessa questão”, defendeu.

Ciavatta criticou a banalização do termo pesquisa. “Todos os professores têm de ser pesquisadores, quando, na realidade, a pesquisa científica exige um tempo para pensar”, argumentou. “A pesquisa é encarada como toda E qualquer busca de informação”, constatou.

Após citar os artigos da Lei de Diretrizes e Bases (LDB) que tratam da pesquisa, ela apontou a baixa qualidade do ensino como um empecilho. “A sofisticada proposta da LDB não se faz com alunos semi-analfabetos. Não basta a alfabetização funcional de muitos e a especialização de poucos. A inovação requer a generalização da cultura científica”, diagnosticou.

Para Ciavatta, a privatização das universidades públicas, com a criação de cursos pagos, se deu a partir do achatamento salarial dos anos 90, o que acarretou maior carga horária dos professores, precarização das relações de trabalho, produtivismo induzido e  individualismo.  “Sou de uma época em que líamos os trabalhos dos colegas. Hoje não temos mais tempo”, lamentou.

A eficiência prescrita e o produtivismo induzido limitaram, segundo ela, a democracia e a autonomia da universidade.

Para a pesquisadora, o viés positivista e mercantilista é que está pautando a produção do conhecimento. “O direito à educação está sendo substituído pelo avanço do mercado sobre a educação, que está sendo vista como um serviço”, afirmou.

Saúde dos docentes
O produtivismo acadêmico está tirando a saúde dos docentes das universidades públicas brasileiras. Essa é a principal constatação feita por estudo da professora do curso de Serviço Social da UFRJ Janete Luzia Leite. “Antes, a docência era vista como uma atividade leve. Agora, está todo mundo comprimido”, afirmou.

A causa dessa angústia está na reforma, feita em 2004, na Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). “Aliada ao Reuni, as mudanças na Capes foram um verdadeiro ataque à autonomia universitária”, denunciou.

O resultado foi a instituição de dois tipos de professores: o pesquisador, que ensina na pós e recebe recursos das agências de fomento para fazer suas pesquisas e o que recebe a pecha de “desqualificado”, que ficou prioritariamente na docência de graduação e à extensão. Esses, em sua maioria, são recém-contratados e terão suas carreiras truncadas e sem acesso a financiamentos.

Para Janete, os atuais docentes estão formando em seus alunos um novo ethos, em que é valorizado o individualismo, ocultada a dimensão da coletividade e naturalizada a velocidade e a produtividade.

Há, também, um assédio moral subliminar muito forte, que ocorre, principalmente, quando o docente não consegue publicar um artigo, ou quando seus orientandos atrasam na conclusão do curso. “Com isso, estamos nos aproximando de profissões que trabalham no limite do estresse, como os médicos e motoristas”, afirmou.

O resultado é que os docentes estão consumindo mais álcool, tonificantes e drogas e estão propensos à depressão e ao suicídio. “É um quadro parecido com a Síndrome de Burnout, em que a pessoa se consome pelo trabalho. Ocorre como uma reação a fontes de estresses ocupacionais contínuas, que se acumulam”, explicou Janete Leite.

O problema, segundo ela, é que as pessoas acham que seu problema é individual, quando é coletivo, além de terem vergonha de procurar o serviço médico. “Com isso, elas vão entrando em suas conchas, temendo demonstrar fragilidades”.

Como forma de mensurar o nível de estresse dos docentes, a pesquisadora da UFRJ começou a fazer uma pesquisa nesse campo. Junto com um grupo de aluno, ela entrevista professores dispostos a falar de seus problemas.

“A primeira constatação que fiz é que as pessoas estão ansiosas para falar sobre seus problemas. Nossas entrevistas não duram menos do que uma hora e meia”, contou.

Já foi possível concluir que a atual realidade tem provocado sintomas psicopatológicos, como depressão e irritabilidade; psicosomáticos, como hipertensão arterial, ataques de asma, úlceras estomacais, enxaquecas e perda de equilíbrio; e sintomas comportamentais, como reações agressivas, transtornos alimentares, aumento de consumo de álcool e tabaco, disfunção sexual e isolamento.

Tudo isso, para Janete Leite, decorre da pressão atualmente feita sobre o docente. “O nosso final de semana desapareceu, pois temos de dar conta do que não conseguimos na semana, como responder e-mails de orientandos, ou escrever artigos”, afirmou.

Para ela, é preciso que haja uma reação dos docentes a esse processo. “Caso contrário, seremos uma geração que já está com a obsolescência programada”, previu.

Veja mais:

Apresentação Maria Ciavatta

Apresentação Janete Leite

Doutor pela UnB recebe prêmio da SBPJor

Via Focaia

por Marina Carlos

https://nodebateacademico.files.wordpress.com/2013/11/b380f-adelmogenro.jpgA oitava edição do Prêmio Adelmo Genro Filho de Pesquisa em Jornalismo (PAGF) escolheu como melhor tese de doutorado o trabalho História e ficção na narrativa de um escândalo midiático, de Eduardo Luiz Correia, doutor pela Faculdade de Comunicação (FAC). A cerimônia oficial de entrega ocorrerá no dia 7 de novembro durante o 11º Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo, na FAC.

A premiação foi criada pela Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor) em 2004, com o objetivo de destacar pesquisadores que apresentam contribuições relevantes para o campo dos estudos de jornalismo.

Orientador da tese vitoriosa nesta edição, o professor Luiz Gonzaga Motta acredita que o diferencial da pesquisa de Correia foi mostrar as diferenças e semelhanças entre um conto e uma cobertura jornalística. Ele ainda afirma: “O prêmio é um reconhecimento da qualidade da linha de pesquisa Jornalismo e Sociedade. Embora o mérito seja todo do autor, me sinto gratificado como orientador”.

Para o vencedor, foi fundamental ser acompanhado por Motta. “O professor me ajudou muito no desenrolar das descobertas e nas correções de rumo”, conta Correia. A tese premiada foi defendida em maio de 2012 e tem como objeto de estudo a cobertura de imprensa do assassinato do ex-prefeito de Santo André Celso Daniel, ocorrido em janeiro de 2002.

O método de pesquisa utilizado por Eduardo Correia foi aplicar a teoria literária no jornalismo. O Programa de Pós-graduação em Comunicação da UnB é um dos pioneiros nesse tipo de estudo – nos últimos vinte anos, pelo menos cinco teses com o mesmo enfoque foram concluídas e seis pesquisas estão em andamento.

Luiz Motta afirma que a disputa no campo acadêmico é acirrada e diz estar satisfeito com essa conquista. Correia, por sua vez, acrescenta que deixou o emprego para se dedicar à pesquisa e se sente honrado com a premiação. “Concluir um doutorado sempre é um processo complicado para o doutorando e, sendo premiado dessa maneira, posso dizer que todo o esforço valeu muito a pena”, comenta.

O pesquisador concluiu a dissertação de mestrado em 2004 na Escola de Comunicações e Artes (ECA), da Universidade de São Paulo (USP). Na UnB, foi indicado ao prêmio Capes de Tese 2013. Eduardo faz planos para novos desafios no ano que vem, quando pretende continuar dando aulas em São Paulo. “Também penso em seguir minha pesquisa com um pós-doutorado, mas ainda não decidi nem o objeto nem a instituição. Mas espero retomar a pesquisa acadêmica o mais breve possível”, diz.

https://nodebateacademico.files.wordpress.com/2013/11/ef069-sbpjor.jpg

CCJ da Câmara aprova PEC do diploma em jornalismo

 

protestam a favor do diploma de jornalista (Foto: Antonio Cruz / Agência Brasil)

Manifestantes protestam a favor do diploma de jornalista (Foto: Antonio Cruz / Agência Brasil)

Via Brasil de Fato

Proposta acrescenta na Carta Magna a obrigação de formação em curso específico para exercer a profissão; texto agora será analisado por uma comissão mista

Mário Coelho,

do Congresso em Foco

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara aprovou, nesta terça-feira (12), a admissibilidade da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 206/12, que institui a obrigatoriedade do diploma em jornalismo para exercer a profissão. Aprovada pelo Senado no ano passado, a PEC agora deverá ser analisada por uma comissão especial antes do plenário.

Nesta fase, os deputados analisam apenas a admissibilidade da PEC. Ou seja, se o Congresso pode sugerir a mudança na Constituição sobre o tema e se o texto está de acordo com as normas legislativas. O mérito da proposta só é apreciado na comissão especial, que não tem prazo para ser criada.

A aprovação da PEC é uma resposta a decisão do STF de 17 de junho de 2009. Na oportunidade, a mais alta corte do país decidiu, por oito votos a um, acabar com a exigência do diploma de curso superior específico para a prática do jornalismo. Na época, os ministros entenderam que o Decreto-lei 972/69, editado durante a ditadura militar e que regulamentava a profissão, afrontava a Constituição Federal.

Após a revogação, uma série de PECs foram apresentadas na Câmara e no Senado. A aprovada pela CCJ hoje é do senador Antonio Carlos Valadares (PSB-SE). Conhecida como PEC dos Jornalistas, foi aprovada no plenário do Senado em 7 de agosto do ano passado. Desde então estava parada na Câmara. Se os deputados não modificarem o texto na comissão especial, pode ser promulgada pelo Congresso após votação em dois turnos em plenário.

“Com efeito, respeitosamente, ousamos discordar do entendimento firmado pela Excelsa Corte de Justiça, pois não vislumbramos que a referida obrigatoriedade de diplomação para o exercício da atividade profissional ofende a liberdade de pensamento, de expressão ou de comunicação, independentemente de licença”, disse o relator, Daniel Almeida (PCdoB-BA), no parecer.

USP: marxismo na política

Carta Capital

USPAs greves na USP

por Vladimir Safatle

Em nenhuma grande universidade do mundo o reitor é escolhido pelo governador de um estado. É uma aberração
A universidade de São Paulo está em greve há mais de um mês. Para quem acompanha os movimentos da mais importante universidade da América Latina, nada de novo. Greves são periódicas na USP, algumas com resultados importantes, entre eles a contratação de novos professores, defesa da autonomia universitária etc., outras nem tanto. O certo é que elas se transformaram em um dos poucos instrumentos à disposição dos professores, estudantes e funcionários para pressionar e negociar. Há de se perguntar por quê.Discutir tal questão com o mínimo de serenidade é difícil, pois há um ressentimento irredutível incrustrado principalmente em certos setores da classe média. Gente que não entende o fato de nunca ter sido reconhecida como grande intelectual ou escritor e que, por isso, sempre está disposta a explicar seu fracasso por um grande complô nascido na academia. Por isso estão sempre prontos a repetir o mesmo mantra ouvido desde o nosso nascimento: reduto de marxistas improdutivos, a universidade (em especial sua área de humanidades) é irrelevante, nunca produziu nada que mereça ser lembrado.

De nada adianta mostrar que 25% de toda a pesquisa realizada no Brasil é feita pela USP e que nossa universidade é um gigante com, aproximadamente, 74 mil alunos só na graduação. Para se ter uma ideia, Harvard tem 6 mil estudantes. O gigantismo obriga a USP a responder por um conjunto de atividades que “universidades de excelência” não precisam sequer pensar. Não somos uma universidade que seleciona os 6 mil melhores alunos e os trabalha quase individualmente. Somos uma grande universidade de massa que precisa responder por exigências de formação, pesquisa, profissionalização e reciclagem, suporte de serviços sociais, entre tantas outras coisas. Se separássemos os 6 mil melhores, chegaríamos perto das melhores do mundo, mas certamente contribuiríamos para jogar os outros 68 mil em condições de ensino muito piores do que aquelas que eles têm hoje.

Por outro lado, as acusações contra o reduto de marxistas chegam a ser hilárias. No Departamento de Filosofia (que estaria no pretenso epicentro do marxismo), faz décadas não há um curso regular sobre Marx, embora haja cursos sobre Locke, Hobbes e outras referências do pensamento liberal. Se nos afastarmos desse mar de ressentimento que invade setores da mídia sempre que se fala da USP, talvez possamos discutir alguns pontos com mais propriedade.

Um dos maiores fatores de desestabilização da vida universitária nesses últimos anos é a escolha do reitor. Há uma forte razão para tanto, pois o processo uspiano é uma aberração. Ultimamente, alguns foram à mídia dizer que uma escolha do reitor por eleição direta seria inaceitável, haja vista o fato de nenhuma das melhores universidades do mundo operar dessa forma. É verdade, mas gostaria também que alguém me indicasse uma, apenas uma universidade entre as melhores, cujo reitor é escolhido pelo governador do estado a partir de uma lista tríplice.

Esta é, de longe, a pior das aberrações, por abrir a gestão da universidade à interferência de alguém que nada sabe a respeito das necessidades acadêmicas, mas que decide tudo a partir do cálculo de interesses de seu partido. É realmente impressionante certos setores da sociedade não perceberem que uma lista tríplice significa transformar a gestão de nossa maior universidade em um cargo como outro qualquer no governo estadual, como presidente da Sabesp ou secretário-geral dos parques estaduais. E por meio de uma indicação em que o governador finge brincar de democracia para, no fim das contas, impor sua vontade. O governador não é uma instância acadêmica, não dá aulas, não escreve artigos, não orienta teses e não participa de conferências e simpósios. Logo, não tem nada a fazer nesse processo.

No caso da USP, a escolha direta de reitor tem uma vantagem grande em relação aos demais modelos: ele quebra a formação de castas burocráticas que se perpetuam por décadas, além de dar mais voz aos alunos. Até mesmo em uma universidade privada, é normal alunos avaliarem cursos, interferirem em várias diretrizes acadêmicas e pedagógicas. Não na USP. Tratamos as opiniões dos alunos como um convite à irracionalidade e à desconsideração das necessidades acadêmicas. Mas isso está longe de ser verdade. Os alunos querem aprender e vencer na vida. Não há razão alguma para recusar ouvi-los.

***

Vladimir Safatle – Professor da Faculdade de Filosofia da USP, é autor do livro “A esquerda que não teme dizer seu nome”

Jornalismo com avaliações positivas Enade

Via Focaia


O curso de Comunicação Social – habilitação em Jornalismo do Campus Araguaia da Universidade Federal de Mato Grosso recebeu no Enade nota 4 no conceito faixa e 3,41 no conceito continuo.

O percentual de cursos com resultado satisfatório no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) 2012 subiu 19,8% em relação a 2009, passando de 48,5% para 68,3% dos cursos. Os dados gerais da avaliação foram apresentados pelo ministro da Educação, Aloizio Mercadante, durante entrevista coletiva na manhã desta segunda-feira, 7, em Brasília.

O Enade funciona em ciclos, avaliando os estudantes quando ingressam na educação superior e quando concluem seus cursos. A edição de 2012 concluiu o ciclo que abrange ciências sociais aplicadas, ciências humanas e áreas afins; e os eixos tecnológicos de gestão de negócios, apoio escolar, hospitalidade e lazer, produção cultural e design. Foram avaliados 7.228 cursos de 1.646 instituições de educação superior.

Entre os cursos em instituições públicas de ensino superior, 80,5% obtiveram uma nota satisfatória, 17% atingiram nota máxima, 5; 29,8%, nota 4, e 33,7% nota 3. Em 2009, o percentual de cursos com notas satisfatórias era de 61,6%.
De acordo com o ministro Aloizio Mercadante, o Enade revelou uma melhora significativa no sistema de educação superior. “O que temos que comemorar é a evolução do sistema em direção à qualidade. Este método de avaliação, acompanhamento e fiscalização estão permitindo avançar nessa direção”, disse.

Mercadante também destacou o aumento na participação dos estudantes. Em 2012 o número de cursos sem conceito, ou seja, que não têm avaliação, foi de 1,8%; em 2009, era 26,6%.

Enade 2013 – Mercadante também destacou que a edição deste ano do Enade, que avaliará cursos de saúde, ciências agrárias e serviço social, será realizada no dia 24 de novembro.

Devem fazer a prova cerca de 200 mil estudantes dos penúltimos e últimos semestres dos seus cursos. Entre as mudanças desta edição também constam a obrigatoriedade do estudante permanecer, ao menos, uma hora na sala de provas e a utilização das notas do Enem para substituir a prova de entrada no Enade.

Confira a apresentação do ministro e as estatísticas gerais.

Fonte: Assessoria de Comunicação Social do MEC, via Inep

Abaixo, os 20 primeiros cursos de Jornalismo e de Publicidade do país, segundo o Conceito Enade Contínuo.

Leia também: Cursos de jornalismo têm maior porcentagem de nota satisfatória no Enade

Quilombola é 40% europeu, mostra DNA

Folha de S. Paulo

File:Quilombolas.jpg

Fonte Wikipedia

REINALDO JOSÉ LOPES COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Análises de DNA estão ajudando a contar a história das populações quilombolas –e o resultado indica que se trata de uma história mestiça.

Em quilombos do Vale do Ribeira (SP), por exemplo, embora a ascendência africana tenha ligeiro predomínio, cerca de 40% do patrimônio genético dos moradores parece ser de origem europeia, enquanto um quinto teria sido legado por indígenas.

Os resultados vêm de um estudo das pesquisadoras Lilian Kimura e Regina Mingroni-Netto, do Instituto de Biociências da USP. Elas analisaram amostras de DNA de 307 quilombolas de dez comunidades no Vale do Ribeira. Os dados foram publicados na revista “American Journal of Human Biology”.

As proporções de ancestralidade africana, europeia e indígena encontradas pelas pesquisadoras e seus colegas batem, grosso modo, com resultados obtidos em quilombos da Amazônia, indicando que tanto brancos quanto índios –além dos escravos negros– tiveram papel importante na formação dessas comunidades tradicionais.

No Congresso Brasileiro de Genética, que acontece nesta semana em Águas de Lindoia (SP), Kimura deve apresentar mais dados, os quais sugerem que essa miscigenação não foi exatamente igualitária, porém.

Quando se olha apenas o cromossomo Y (a marca genética da masculinidade, transmitida apenas de pai para filho homem), verifica-se que mais de 60% dos quilombolas do sexo masculino descendem de um homem europeu, enquanto apenas 9% deles têm um indígena como ancestral paterno. (O que sobra da conta, claro, corresponde às linhagens africanas do cromossomo Y.)

A interpretação mais lógica desses dados é que, na época colonial, os homens de origem europeia monopolizavam as mulheres africanas e indígenas. Trata-se de um padrão encontrado numa série de outras populações brasileiras, inclusive no caso de quem se declara branco: é comum que a pessoa descenda de índios ou negros pelo lado materno, mas bem mais raro que sua linhagem paterna tenha essa origem.

GARIMPOS

Kimura conta que a região do Vale do Ribeira teve um ciclo do ouro incipiente e que, quando os garimpos se esgotaram, muitos escravos foram abandonados por seus donos ou fugiram, dando origem às comunidades da região.

Os descendentes desses primeiros quilombolas contam que mestiços de brancos com índios também teriam se juntado a esses grupos. “O que está menos claro é a presença de homens de origem indígena. Parece que as mulheres índias é que foram incorporadas nas comunidades”, explica a bióloga.

Ela diz reconhecer o risco de que resultados como os obtidos em seu estudo tenham uso político em discussões sobre cotas raciais, por exemplo.

“Acho que esses dados servem para você contar e valorizar a sua história. Mas eles são muito diferentes da autoidentificação, que está ligada à origem cultural. A gente sabe, por exemplo, que pessoas com cor de pele bem clara podem ter mais genes de origem africana e vice-versa”, pondera.

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