A diversidade no mundo globalizado

Época

O estudioso francês Dominique Wolton afirma que a mídia de massa é um formidável – e subestimado – fator de preservação de identidade cultural

 

O cientista político francês Dominique Wolton é um intelectual que rema contra a corrente. Adora a TV e lamenta ter pouco tempo para assistir. Dedica no máximo uma hora e meia do dia ao principal objeto de seus estudos. “A TV e o rádio são os alicerces da democracia de massas. São eles que asseguram a tolerância ao diferente, reforçam os laços sociais e promovem a identidade de uma nação”, afirma. Seu discurso também destoa da visão convencional sobre a internet. “É uma besteira dizer que ela promove a democracia, a não ser em regimes totalitários”, diz ele. Wolton afirma que os intelectuais, tão críticos sobre a mídia de massa, se deixaram instantaneamente encantar pela internet. Razão disso, segundo Wolton: o deslumbramento com a tecnologia. “Os intelectuais jamais gostaram suficientemente da TV e do rádio, mas de repente amaram a internet.”

Diretor da revista Hermès, referência internacional na área de mídia, e pesquisador do Centro Nacional de Pesquisas Científicas da França, entidade pública sediada em Paris, com mais de 10 mil acadêmicos, Wolton tem 16 livros publicados sobre comunicação. No Brasil pela sexta vez, ele deu, na semana passada, palestras em São Paulo e no Rio de Janeiro. Depois da palestra no Rio, conversou com ÉPOCA. Wolton fala inglês, mas prefere dar entrevistas na própria língua. Bem-humorado, diz que “é para preservar a diversidade cultural”.

ÉPOCA – O senhor afirma que o rádio e a TV são essenciais para o fortalecimento da identidade cultural de uma nação. Por quê?
Dominique Wolton
– A televisão é a única atividade compartilhada por ricos e pobres, pela população urbana e rural, por jovens e velhos. Isso acontece não pela tecnologia, mas pelo fato de que os programas são destinados a todas essas categorias. Essa virtude única se deve ao conteúdo. É um papel social fundamental, desde que todas as categorias sociais se identifiquem com o que vêem na televisão. Assistir à TV é um consumo individual de uma atividade coletiva, e eis outro fator fascinante. É isso que obriga a TV a prestar atenção à diversidade cultural da sociedade e a preservá-la. A TV produz uma cultura mediana acessível, sensibiliza o telespectador para outras culturas e reflete o mundo contemporâneo. TV e rádio também respeitam a hierarquia cultural. Os telespectadores menos educados podem ser instigados a querer conhecer a cultura da elite a partir do que viram na TV. Podem comprar um livro depois de assistirem a uma minissérie ou visitar um museu para ver um quadro que aparece num filme.
ÉPOCA – A globalização gera uma uniformização cultural. O senhor afirma que as diferenças serão acirradas e que cabe aos meios de comunicação ajudar na compreensão entre os homens. Como?
Wolton
– A dinâmica econômica da globalização é a concentração. Ela está acontecendo por toda parte e em tudo: na indústria petrolífera, na automobilística, na energia. Os grupos econômicos fazem isso e argumentam, demagogicamente, que, quanto mais poderosos forem, mais respeito terão à diversidade cultural dos países onde atuam. Isso é uma mentira. Mas há uma reação a essa uniformização proposta pela globalização. É essa resistência que vai se traduzir numa reivindicação cada vez mais intensa por uma identidade cultural. A mídia de massa terá um papel vital no atendimento dessa reivindicação.
ÉPOCA – O senhor diz que, quanto mais educada a pessoa, melhor ela aproveitará o conteúdo da internet. Por que isso não vale para a TV e o rádio?
Wolton
– Justamente porque a oferta do rádio e da TV é pensada para que todos tenham acesso a ela. Ao passo que, na internet, existe uma segmentação natural. Sem um nível educacional adequado, você não entende. A internet não chega a ser elitista, ela é comunitária. A televisão é uma janela aberta para todas as culturas.
ÉPOCA – O que explica o preconceito das universidades contra a TV?
Wolton
– Primeiro: os intelectuais acreditaram que a cultura televisiva colocaria em risco a cultura de elite. Segundo: os intelectuais têm uma visão errada do telespectador, como se ele acreditasse em tudo o que vê. Ignoram a percepção crítica do telespectador. Em terceiro lugar, mesmo sendo aparentemente progressistas, os intelectuais nunca tiveram interesse pela cultura mediana criada pela televisão. Fingiram ser os defensores da cultura, sem perceber quanto a televisão mudou a vida de milhões de pessoas. Sob o pretexto de defender grandes valores, tiveram uma posição corporativista. Eles se dizem a favor da democracia, mas ao mesmo tempo desqualificam a sociedade de massas. Desprezam a inteligência dos milhões de telespectadores, não enxergam que uma pessoa pode ser ignorante, mas, ainda assim, inteligente. É incompreensível que essa postura tenha persistido por 50 anos. Os intelectuais não compreenderam a revolução da televisão e da comunicação. Não viram até que ponto a TV é um meio de emancipação para milhões de pessoas e uma forma mais difícil de mídia. É fácil cativar um público segmentado e muito difícil agradar a platéias diferentes. Os intelectuais ainda podem ser criticados por falar mal da televisão, mas não se recusar a aparecer nela nem a dar entrevistas. O grande paradoxo é que, com a chegada da internet e das novas tecnologias, esses mesmos acadêmicos não tiveram a mesma visão crítica e adotaram a ideologia tecnológica reinante sem nenhuma resistência.
ÉPOCA – O que gerou essa apatia crítica?
Wolton
– O deslumbramento com a tecnologia. Os intelectuais jamais gostaram suficientemente da TV e do rádio, mas de repente amaram a internet. Eles continuaram repetindo os estereótipos da TV e do rádio e não fizeram duas perguntas básicas em relação à internet. Qual a diferença entre liberdade de informação e lixo de informação? O que é uma informação sobre a qual não há nenhum controle? Desde que os homens começaram a escrever, sempre foi necessário validar a informação. Por que isso não é necessário para a internet? Quando se fala em controle na internet, muitos vêem isso como uma ameaça à liberdade de expressão. Mas e a especulação financeira virtual, com os boatos, a utilização da rede virtual pelos terroristas e a ciberperversão sexual? Alguns intelectuais acham esses crimes inevitáveis, parte do jogo da liberdade da internet. Para mim, isso é uma resistência do mundo acadêmico em refletir sobre a comunicação. É a defesa de uma terra sem lei, uma anarquia, onde sabemos que quem ganha é o mais forte.
ÉPOCA – Qual o papel dos jornais e revistas nesse mundo da internet?
Wolton
– Quanto mais a informação for interativa, mais central será o papel da imprensa escrita. Porque as pessoas procuram num jornal diário ou numa revista semanal o essencial do dia, da semana. O desafio é recuperar os jovens leitores. Hoje a imprensa escrita está restrita aos mais velhos, enquanto a internet e o rádio seduzem os jovens. Como eu digo sempre, o rádio não ameaça o livro, a televisão não ameaça o rádio e a internet não ameaça a televisão. Quanto mais interatividade visual houver, mais teremos vontade de mexer num papel. Quando tudo se torna tão efêmero, mais se valoriza aquilo que fica, um livro, por exemplo. O livro de bolso é uma resposta à tirania da televisão. A televisão deveria inventar algo assim genial para resistir à tirania da internet.
ÉPOCA – O senhor diz que a internet é uma atividade solitária. Como explicar fenômenos como a Wikipédia, a enciclopédia virtual construída com a colaboração de milhares de internautas?
Wolton
– Sim, a internet permite uma série de trocas de informações entre pessoas que acreditam em coisas parecidas, como, sei lá, futebol chinês. Essas pessoas têm algo a dizer umas para as outras e passam a integrar comunidades. Então, a internet pode ter um papel importante em regimes ditatoriais, porque dificilmente é controlada pela ditadura. Mas numa democracia? É uma besteira dizer que a internet permite a democracia. Se isso é verdade, o que existia antes? A internet é um contrapoder adicional, freqüentemente um contrapoder até mesmo à imprensa, mas não podemos dizer que é a essência da democracia só porque qualquer um pode dizer qualquer coisa. Já os meios de comunicação de massas são verdadeiramente democráticos, porque nos ensinam a conviver com as diferenças. Por séculos ficamos isolados uns dos outros. E agora, que nos aproximamos, enxergamos as diferenças. É preciso tolerar isso e aprender a conviver com o diferente. Há mais igualdade diante da televisão que diante da prateleira de um supermercado, ou na escolha de serviços de saúde.
ÉPOCA – A internet não permite mais interatividade que a TV?
Wolton
– Não. A TV é um meio interativo. Eu assisto a um programa e depois reajo a ele, em comentários com os amigos ou agindo. O que a internet tem é uma interatividade imediata. Mas isso é uma desvantagem. O intervalo de tempo é fundamental para a reflexão, para que o espírito crítico funcione. Eu me interesso pela interatividade mediada pelo tempo.
ÉPOCA – Se a TV é tão estratégica para a identidade cultural, é legítimo impedir sua concessão a estrangeiros?
Wolton
– Concordo que companhias estrangeiras podem ter uma participação financeira parcial nas emissoras, mas nunca o controle. Isso provocaria uma desconfiança dos telespectadores que, no longo prazo, interferiria nos resultados financeiros.
ÉPOCA – Há exemplos disso?
Wolton
– No cinema, nos anos 80, grupos japoneses como a Sony compraram estúdios de Hollywood. Os americanos contra-atacaram e compraram de volta. (Em 1989, a gigante japonesa comprou a Columbia Pictures e a Tri-Star Pictures.) É um paradoxo. Os americanos querem rádios e televisões dos outros, mas não querem que comprem nada deles. Eles são pelo livre-comércio no resto do mundo, mas protecionistas em seus interesses. Não percebem, mas haverá um efeito bumerangue gigantesco contra eles.
ÉPOCA – O senhor se refere ao antiamericanismo?
Wolton
– Sim, mesmo antes da guerra do Iraque esse sentimento já era notado. Os americanos imaginavam que bastava exibir os canais CNN e Fox News pelo mundo que as pessoas iriam imitá-los. Estão errados. As pessoas fora dos EUA não se identificam com a CNN e a Fox. Os americanos imaginam que todos os que querem um carro com ar-condicionado, uma casa com piscina e tomar Coca-Cola desejam, no fundo, ser americanos. Não. As pessoas querem os confortos modernos, não ser americanos. É por isso que os EUA votaram contra a Declaração de Diversidade Cultural da Unesco, aprovada por 154 países. Essa declaração não muda as desigualdades políticas e demográficas, mas é fundamental pelo princípio filosófico. Ela diz que todas as culturas se equivalem. O mandarim, falado por mais de 1 bilhão de chineses, é tão válido quanto um dialeto de 50 mil pessoas. Só os EUA e Israel foram contra a Declaração. Os EUA cometeram um grande erro porque as pessoas vão começar a se perguntar por que eles não respeitam a diversidade. E vão se questionar sobre o cinema, a música, a televisão…
ÉPOCA – Não é esperar demais que a TV seja a guardiã da identidade cultural de um país?
Wolton
– A televisão não se dá conta dessa responsabilidade. A TV é uma arte modesta, banal, cotidiana. Todo mundo assiste, fala dela. A programação da TV irriga todas as demais culturas, incluída a artística. A arte contemporânea seria outra não fosse a televisão. É a TV que integra o país nos debates políticos, nas grandes coberturas esportivas, nas campanhas educacionais. Numa campanha eleitoral democrática, os candidatos apresentam suas idéias aos eleitores através da TV e do rádio. É na TV que eles discutem entre si e são questionados por jornalistas, de forma que todos possam formar sua opinião, mesmo os analfabetos.
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