Português é o que conta?

Folha de S. Paulo

Roberto Dias

A gente cantamos

Quem sintoniza o rádio hoje no Brasil pode achar que os plurais foram abolidos da língua portuguesa. Parece ter sido implantada uma novíssima gramática, que desconhece fronteiras de gênero musical e regras de conjugação verbal.

Mais popular embaixador da atual música brasileira, dono de meio bilhão de visualizações no YouTube, Michel Teló promoveu um atentado à sintaxe, visível a olho nu já no título: “É Nóis Fazer Parapapá”.

Gusttavo Lima, líder da lista latina da revista “Billboard”, emplacou “As Mina Pira”.

O sertanejo Sorocaba, compositor que mais arrecadou em 2012, oficializou o fim do “você” (em “O Que Cê Vai Fazer”) e ainda tirou onda de sua habilidade linguística. Em “Imagina na Copa”, mandou:

“E o nosso inglês tá bonito, tá bacana / Tô fluente igual o Joel Santana / Eu vou sempre empurrando com a barriga / Vou fazer um intensivão só pra pegar as gringas” (sim, ele canta o “s” de “gringas”, mesmo atrapalhando a rima).

No rap e no funk, quem dá a bola quadrada é Neymar, habitué dos novos clipes. Se na Espanha ele se aventurou mais no catalão do que Messi, aqui gravou com a banda Ao Cubo um rap que anuncia: “Liga nóis canta assim”. O jogador também promoveu McRodolfinho, que declama: “Traz bebida pras gatona, deixa elas malucona”.

(As letras recentes, aliás, fazem Vinicius de Moraes, poeta do uísque “on the rocks”, e Zeca Pagodinho, cantor das paratis e das geladas, parecerem abstêmios, tamanha a centralidade que o álcool tomou.)

Quem não quiser se arriscar a sentir saudade da nova língua de Brown deve evitar o funkeiro Neguinho do Kaxeta, portador de versos como “Eu tinha alguns bailinho marcado” e “Ô novinha vem com nóis, nóis damo condição”.

O KLB, banda de sucesso entre adolescentes e eleitores, não viu problemas em aniquilar a matemática e a conjugação do verbo mais basilar da língua: “Cada dez palavras que eu falo onze é você”.

O filósofo Wilhelm von Humboldt dizia que a linguagem espelha o pensamento. Por essa lente, vê-se em outra galáxia o tempo em que o drama cognitivo da música era desenhar o abajur cor de carne do inglês Ritchie ou destrinchar o tchan para mentes uspianas.

Ficou longe a época em que a música, mesmo a mais elitizada, produzia exemplos escolares. Caso do concretismo biológico de “O Pulso”, dos Titãs. Da propositalmente desconjugada “Inútil”, do Ultraje a Rigor. De “Corrente”, de Chico Buarque, nas salas mais filosóficas. Da destreza com que Cartola, que parou de estudar no primário, desfilava pela segunda pessoa do singular.

Morto há mais de 400 anos, Camões sambaria miudinho para entender a vivíssima língua que o tem como referência. Nesses mares nunca dantes navegados, as mina pira.

ROBERTO DIAS é secretário-assistente de Redação da Folha de S. Paulo.

Como emburrecer americanos

O Estado de S. Paulo – 01 de março de 2008
Susan Jacoby* 
“A mente deste país, ensinado a almejar objetivos baixos, consome a si mesma”. Ralph Waldo Emerson fez esta observação em 1837, mas suas palavras ecoam como um doloroso pressentimento nos Estados Unidos muito diferentes de hoje. Os americanos estão em sérios apuros intelectuais – correndo o perigo de perderem nosso capital cultural, duramente conquistado, para uma mistura virulenta de antiintelectualismo, antirracionalismo e baixas expectativas.
Este é o último tema que qualquer candidato ousaria levantar no longo e sinuoso caminho até a Casa Branca. É quase impossível falar sobre de que forma a ignorância da população contribui para graves problemas nacionais sem ser rotulada de “elitista”, um dos mais poderosos pejorativos que podem ser aplicados a alguém que está aspirando a um alto cargo público. Em vez disso, nossos políticos repetidamente garantem aos americanos que eles são apenas “pessoas comuns”, um termo condescendente que você procurará em vão nos importantes discursos presidenciais antes de 1980. (Imagine: “Decidimos aqui que os mortos não terão morrido em vão … e que esse governo das pessoas comuns, pelas pessoas comuns e para as pessoas comuns não perecerá da Terra”). Tais exaltações à mediocridade estão entre os traços que distinguem o antiintelectualismo em qualquer época.
A obra clássica sobre este assunto, de autoria do historiador da Columbia University Richard Hofstadter, Anti-Intellectualism in American Life (Antiintelectualismo na Vida Americana), foi publicada em 1963, entre as cruzadas anticomunistas da era McCarthy e as convulsões sociais do final da década de 1960. Hofstadter vê o antiintelectualismo americano como um fenômeno cíclico – que freqüentemente se manifestou como o lado negro dos impulsos democráticos do país em religião e educação. Mas o tipo de antiinlectualismo de hoje é menos um ciclo do que uma avalanche. Se Hofstadter (que morreu de leucemia em 1970 aos 54 anos) tivesse vivido o suficiente para escrever uma seqüência dos tempos modernos, teria concluído que nossa era de programas de TV que misturam notícia com matérias de entretenimento, sete dias por semana e 24 horas por dia, sobrepujaram suas previsões mais apocalípticas sobre o futuro da cultura americana.
A mediocridade, para parafrasear o falecido senador Daniel Patrick Moynihan, tem sido continuamente definida, em várias décadas, por uma combinação de forças até agora irresistíveis. Essas forças incluem o triunfo da cultura do vídeo sobre a cultura impressa (e por vídeo quero dizer qualquer tipo de mídia digital, assim como as mídias eletrônicas antigas); um descompasso entre o nível em elevação da educação formal dos americanos e seu domínio titubeante de geografia, ciências e história básicas; e a fusão do antirracionalismo com o antiintelectualismo.
Primeiro e acima de tudo, entre os vetores do novo antiintelectualismo, está o vídeo. O declínio da leitura de livros, jornais e revistas é agora uma história velha. A falta de leitura é mais acentuada entre os jovens, mas continua a se acelerar e a afligir americanos de todas as idades e níveis de instrução.
Segundo um relatório divulgado no ano passado pela National Endowment for Arts, o hábito da leitura decaiu não apenas entre as pessoas com baixos níveis de instrução. Em 1982, 82% das pessoas com curso superior liam romances e poemas por prazer; duas décadas mais tarde, essa porcentagem era de somente 67%. E mais de 40% dos americanos com menos de 44 anos não leu um único livro – de ficção ou não-ficção – no decorrer de um ano. A proporção de jovens de 17 anos que não lêem nada (a não ser o exigido pela escola) mais do que dobrou entre 1984 e 2004. Este período de tempo, é claro, abarca o surgimento dos computadores pessoais, a navegação na web e os jogos de vídeo.
Será que isso importa? Tecnófilos ridicularizam as lamúrias sobre o fim da cultura escrita como a auto-absorção de (quem mais?) os elitistas. No seu livro Everything Bad is Good For You: How Today?s Popular Culture Is Actually Making Us Smarter (Tudo que é Ruim é Bom para Você: Como a Cultura Popular de Hoje Está, na Verdade, nos Tornando mais Inteligentes), o escritor científico Steven Johnson nos assegura que não temos nada com o que nos preocupar. Certo, os pais podem ver seus “filhos vibrantes e ativos olhando, silenciosamente e boquiabertos, para uma tela”. Mas estas características de zumbi “não são sinais de atrofia mental. São sinais de concentração”. Tolice. A verdadeira questão é o que crianças pequenas estão deixando de fazer e não no que estão se concentrando, enquanto estão hipnotizados por vídeos que já viram dezenas de vezes.
A despeito de uma agressiva campanha de marketing que visa encorajar os bebês a partir dos seis meses a assistir vídeos, não há indícios de que se concentrar na tela seja ruim para crianças pequenas. Num estudo divulgado em agosto do ano passado, pesquisadores da Universidade de Washington concluíram que bebês com idade entre 8 e 16 meses reconheceram uma média de seis a oito palavras a cada hora gasta assistindo vídeos.
Não posso provar que ler durante horas numa casinha de brinquedo instalada em cima de uma árvore (era o que eu fazia quando tinha 13 anos) cria cidadãos mais informados do que ficar horas e horas jogando o Xbox da Microsoft ou obcecados com os perfis da comunidade virtual Facebook. Mas a incapacidade para se concentrar durante longos períodos de tempo – diferente das breves leituras para obter informações na Web – me parece intimamente relacionada com a incapacidade da população de lembrar-se até de eventos noticiosos recentes. Não é de espantar, por exemplo, que estejamos ouvindo menos da parte dos candidatos à presidência sobre a guerra no Iraque nos estágios mais recentes da campanha das primárias do que nos primeiros momentos – simplesmente porque tem havido menos reportagens em vídeo sobre a violência no Iraque. Os candidatos, como os eleitores, enfatizam as notícias mais recentes e não necessariamente as mais importantes.
Não é de espantar que anúncios políticos negativos funcionem. “Com texto, é até fácil manter um acompanhamento dos diferentes níveis de autoridade por trás das diferentes peças de informação”, observou o crítico de cultura Caleb Crain recentemente na revista The New Yorker. “Por outro lado, a comparação entre duas reportagens em vídeo é consternadora. Obrigados a escolherem entre reportagens conflitantes na televisão, os telespectadores recorrem à intuição ou àquilo em que acreditavam antes de começar a assistir”.
Na medida que os consumidores de vídeo se tornam progressivamente mais impacientes com o processo de adquirir informações por meio da língua escrita, todos os políticos se vêem fortemente pressionados a transmitir suas mensagens o mais rapidamente possível – e a rapidez hoje é muito mais célere do que costumava ser. Kiku Adatto, da Harvard University, descobriu que, entre 1968 e 1988, a média de trechos editados de notícias sobre um candidato à presidência – apresentando a voz do próprio candidato – caiu de 42,3 segundos para 9,8 segundos. De acordo com um outro estudo de Harvard, em 2000, essa fala diária por candidato foi de apenas 7,8 segundos.
A diminuição do espaço da atenção pública fomentada pelo vídeo está intimamente ligada à segunda força antiintelectual mais importante na cultura americana – a erosão do conhecimento geral.
As pessoas acostumadas a ouvirem seu presidente explicar escolhas políticas complicadas dizendo abruptamente “Sou eu quem decide” talvez não consigam imaginar o esforço de Franklin D. Roosevelt, nos sombrios meses após Pearl Harbor, para explicar porque as Forças Armadas dos Estados Unidos estavam sofrendo uma derrota após a outra no Pacífico. Em fevereiro de 1942, Roosevelt pediu aos americanos que abrissem um mapa durante seu programa de rádio para que pudessem entender melhor a geografia das batalhas. Os mapas se esgotaram nas lojas de todo o país, e cerca de 80% dos americanos ligavam o rádio para ouvir o presidente. FDR disse a seus redatores de discurso que estava certo que, se os americanos tinham entendido as imensas distâncias que os suprimentos tinham que percorrer para chegarem às Forças Armadas, “eles podem receber qualquer tipo de má notícia com bravura”.
Este é um retrato não apenas de uma presidência e um presidente diferentes como também de um país e de cidadãos diferentes – um país que não tinha acesso aos mapas do Google mas era muito mais receptivo ao conhecimento e à complexidade que a população de hoje.
Segundo um levantamento de 2006 da National Geographic-Roper, quase metade dos americanos com idade entre 18 e 24 anos não acha necessário saber a localização de outros países nos quais importantes acontecimentos estão sendo objeto de notícia. Mais de um terço da população acha que “não tem nenhuma importância” saber uma língua estrangeira, e somente 14% consideram importante o conhecimento de línguas estrangeiras.
Isso nos conduz ao terceiro e último fator que está por trás do emburrecimento americano: o problema não é a falta de conhecimento em si, mas a arrogância em relação a essa falta de conhecimento. A questão não é apenas as coisas que não sabemos (considere o fato de que um em cada cinco americanos adultos pensa que o Sol gira em torno da Terra, segundo a National Science Foundation) – mas o alarmante número de americanos que, presunçosamente, concluem que não precisam saber tais coisas em primeiro lugar. Chame isso de antirracionalismo, uma síndrome particularmente perigosa para nossas instituições e intercâmbio de idéias. Não saber uma língua estrangeira nem a localização de um país importante é uma manifestação de ignorância; negar que tal conhecimento importa é puro antirracionalismo. A venenosa mistura de antirracionalismo com ignorância prejudica as discussões da política pública nos Estados Unidos sobre tópicos que vão desde assistência médica à tributação.
Não existe uma cura rápida para esta epidemia de antirracionalismo e antiintelectualismo arrogantes. Esforços repetidos para elevar as notas dos testes padronizados abarrotando os alunos com respostas específicas para perguntas específicas em testes específicos não adiantarão. Além disso, as pessoas que são exemplos do problema geralmente não o percebem. (“Pouquíssima gente acredita ser contra o pensamento e a cultura”, observou Hofstadter.) Já está mais do que na hora de uma discussão nacional séria sobre se nós, como uma nação, valorizamos verdadeiramente o intelecto e a racionalidade. Se esta de fato se tornar uma “eleição de mudança”, o baixo nível do discurso num país com uma mente ensinada a almejar objetivos baixos precisa ser o primeiro item da agenda de mudança.
* A premiada escritora americana Susan Jacoby é autora, entre outros, de The Age of American Unreason. É colaboradora dos principais jornais americanos e ingleses
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