“o bios virtual é um objeto por excelência dos estudos de comunicação”

Fonte – Ciseco

Foto: Nathália Ronfini

Foto: Nathália Ronfini

Em um contexto de prevalência das tecnologias digitais, o professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Muniz Sodré defende que a ciência da comunicação é a possibilidade, politica e filosoficamente, de termos uma medida humana da relação com a máquina. Entretanto, diante da falta de interesses dos pesquisadores da área e devido a questões institucionais, ele considera um problema a constituição de uma ciência da comunicação. Apesar do que chama de “vasto caos criativo”, delineado pela diversidade temática explorada pelos pesquisadores da área, Muniz diz que não há na comunicação uma visão de unidade do campo. Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, mesmo com a grande quantidade de produção intelectual, os autores não citam uns aos outros e, por isso, não há irradiação social do conhecimento produzido na área.

Em sua conferência no Pentálogo III, intitulada “O socius eletrônico” [ver Resumo], o professor da Escola de Comunicação da UFRJ vai defender que estamos em uma nova constelação social criada pela comunicação eletrônica e que, por isso, as relações entre os parceiros sociais são mais interobjetivas do que subjetivas. E é este ambiente, segundo Muniz, que é fundamental para falar de uma ciência da comunicação hoje, e não objetos como televisão, rádio, celular, computador etc.

Ex-presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Muniz Sodré teve o título de professor emérito concedido no último dia 17 de agosto. Ele é autor de 36 livros, a maioria sobre comunicação e cultura, estando entre eles O monopólio da fala: função e linguagem da televisão no Brasil, A comunicação do grotesco: introdução à cultura de massa no Brasil, Antropológica do espelho: uma teoria da comunicação linear e em rede e As estratégias sensíveis: afeto, mídia e política. Em seu último livro, Reinventando a educação: diversidade, descolonização e redes (Ed. Vozes), ele se propõe a discutir os desafios para a educação diante das novas tecnologias, dos novos saberes e das transformações porque passa o capitalismo. A obra é definida como uma provocação reflexiva e política à velha pedagogia “para que desperte da narcose colonial e assuma as mutações já em curso tanto no mundo do trabalho quanto do comportamento jovem”.

Como você abordará a questão do quarto bios, tema presente nas suas últimas pesquisas, no Pentálogo III?
Muniz Sodré – Houve um momento em que a comunicação na França, nos anos 80, era a Semiologia. Então os pesquisadores fortes da comunicação, no meu entender, eram os que faziam Análise do Discurso. Ou então a Filosofia, como Baudrillard. Mas isso passou. A comunicação, na verdade, perdeu a potência de pensamento que tinha e ficou um vácuo. E não se faz mais aquele pensamento comunicacional que parecia que ia surgir nos anos 70 e 80, muito na França, e hoje há uma espécie de caos, em que mesmo os Estados Unidos, que sempre foram práticos, com a sociologia da comunicação, acusam isso. Eu vi um artigo recente numa revista de comunicação americana, onde é dito que há 243 teorias da comunicação só no panorama americano e nenhum cita o outro. É um campo onde as pessoas não têm conexões, citam muito pouco uns aos outros.

Essa situação também não se repete no Brasil?
Muniz Sodré – Sim, aqui e nos Estados Unidos. Essas agências de fomento obrigam, para conceder bolsa, a produzir em quantidade. As pessoas produzem, mas praticamente ninguém lê artigo dos outros. São poucas as pessoas lidas. Na bibliometria que a Immacolata [Vassalo de Lopes, professora titular da USP] fez, parece que sou um dos mais citados. Há outros, como o [Jesús Martin-] Barbero [veja AQUI a pesquisa]. Mas de modo geral, ninguém cita os outros. Vou dizer quem é a pessoa que mais lê artigo dos outros e cita: eu. Toda revista e todo artigo que me dão, eu leio. E eu leio não é por bondade. Efetivamente, eu aprendo. Aprendo por coisas que eu incorporo e por coisas que eu descarto. É um caos. Mas esse caos é criativo. O problema no meu entender hoje é constituir uma ciência da comunicação. Só que ninguém tem interesse nisso, porque as condições científicas de uma epistemologia não são apenas objetivas, elas são sociais, elas são interrelacionais, são subjetivas, e o campo não tem interesse. Aqui no Rio a epistemologia viria das escolas de comunicação, da pós-graduação principalmente, mas as escolas privadas não têm condições de fazer nada, só têm aquela aula repetida. As escolas públicas têm os cursos de pós-graduação que vão melhorando cada vez mais de qualidade, mas também não têm interesse em fazer isso por questões institucionais. O professor, depois de passar pelo estágio probatório em escola pública, faz o que quer. E as ciências sociais – ou toda e qualquer ciência – se constituem no quadro de uma forma chamada cátedra, tradicionalmente. Mas as cátedras desapareceram. Bem, aliás, eu acho que aquilo era eclesiástico, era muito clerical, mas foi substituído pelos departamentos, que ficam somente na administração. O departamento substitui a cátedra. O que acontece, então, é que o campo é um vasto caos criativo, tem uma diversidade temática, os autores põem o que querem na área, e essa diversidade temática é boa, em princípio. O problema é não ter, digamos, uma visão de unidade do campo. Aí nos perguntamos: por que ter visão de unidade? Por efeitos políticos-sociais.

Essa é uma situação dos dias atuais ou vivemos a continuidade de um processo iniciado antes?
Muniz Sodré – É uma continuidade, mas nos Estados Unidos, por exemplo, o campo está colado à sociologia da comunicação e, mesmo assim, tem uma dispersão. Aqui não está colado a nada. Um dá um curso de Filosofia, o que pode ser bom; outro vem da Antropologia; outro vem da Ciência Política… A pergunta sobre o tema foi feita no último número da Revista da Intercom pelo americano Craig Calhoun [professor nos departamentos de Sociologia, História, Cultura e Comunicação da Universidade de Nova York], com um artigo interessante sobre essa dispersão [clique AQUI para ler o artigo]. Como os americanos são muito práticos, ele faz uma pergunta. Os departamentos de comunicação contratam gente de Sociologia, Antropologia, Filosofia, mas a recíproca é verdadeira? Quer dizer, esses departamentos contratam alguém que tenha doutorado em Comunicação? Não contratam. E aqui acontece o mesmo. Por quê? Porque falta cientificidade ao campo. E essa cientificidade não é objetiva, epistemológica apenas, é questão de como se constitui a irradiação social desse conhecimento, como se constituiu na Sociologia, na Antropologia. Então, não há cientificidade, é muita pequena, fica dentro da área. Como a área cresceu muito, é muito grande, tem muita Escola, fica dentro da área. É dentro da área que circula esse conhecimento, não vai para fora.

“Neste contexto em que máquinas e homens entram
e também os homens são pensados por máquinas,
nós não temos que ter mais a angústia sartriana
que tínhamos em relação à coisa inerte.”

O fato dessa área estar sempre buscando em outras ciências o seu método, a sua teoria, e, consequentemente, por não firmar dentro dele próprio o seu método, explica essa falta de contorno mais preciso do campo?
Muniz Sodré – Método nenhum garante a cientificidade. Isso é uma distorção da ciência. Por exemplo, se perguntarmos: qual é o método da Antropologia? Diz-se que é a etnografia. A etnografia pode ser o método de qualquer outro campo. É um grande erro, inclusive, o antropólogo dizer que o método exclusivo dele é a etnografia, pois a Antropologia foi originariamente a mais pura das ciências sociais, muito mais do que a Sociologia. A Sociologia tem métodos, mas está em crise. Na PUC não se encontra mais o curso de Sociologia, mas de Ciências Sociais, que é diferente, pois inclui a Sociologia, a Antropologia. Poderia incluir a Comunicação se a esta tivesse prestígio para isso. Não tem, apesar do ponto de vista da demanda de alunado. É enorme a demanda aqui, na França, nos Estados Unidos, na América Latina, em todo lugar, mas isso vem mais da parte do público do que da parte do campo científico tradicional, que é muito reacionário e tem visões totalmente erradas com relação à Comunicação. Então na conferência do Pentálogo, eu quero mostrar que hoje o parceiro social, o socius, quer dizer, o companheiro dentro da vida social – socius, em latim, significa parceiro, companheiro –, não é mais o mesmo da Sociologia nem da Antropologia, porque estamos num espaço social onde as relações são mais, às vezes, interobjetivas do que intersubjetivas. Nós dialogamos com máquinas o tempo inteiro. O celular, por exemplo, mais do que a televisão, mais do que o computador, que pode estar embutido no celular, é a grande máquina. Em 2020, haverá no planeta 3 bilhões de usuários de dispositivos móveis, com funções embutidas. Mas já existe atualmente 7 bilhões de dispositivos de toda sorte, móveis e não móveis, eletrônicos que equivalem à população do planeta no momento. Ora, é evidente que isso interfere, que altera as relações sociais no sentido de que nós temos que incorporar a máquina como parceira. Não é apenas pelo eletrônico, pelo celular ou pelo computador, é pelo papel que a máquina, que a prótese, tem no próprio corpo humano. Dias atrás o cineasta David Cronenberg, que fez dois ou três filmes sobre a máquina, falando sobre o último filme dele, Cosmópolis, disse que o interesse dele pela máquina, pela prótese, tem a ver com que o que acontece no corpo. Ele disse: “A realidade está dada no corpo. A realidade é a presença grande de próteses, da máquina”. Vimos o brasileiro Alan Fonteles nas Paraolímpiadas, quando ganhou do sul-africano Oscar Pistorius. Eles são meio-robôs. Mas do ponto de vista técnico, estão atrasados, são antigos, porque não são biônicos. Biônico significa mandar uma ordem cerebral e a prótese obedecer. Não, eles têm próteses avançadas, de carbono, mas o esforço é muscular. Mas esses atletas são espécies de super-homens. Imagina colocar uma prótese em um homem e ele correr, nós ficamos atrás. O que eu quero mostrar, então, é que neste contexto em que máquinas e homens entram e também os homens são pensados por máquinas, nós não temos que ter mais a angústia sartriana que tínhamos em relação à coisa inerte, a angústia do romântico de que a máquina chegou e vai nos derrubar. Estamos em um novo tipo de constelação social, de ordem social, onde, portanto, o computador, a computação, a comunicação eletrônica, cria outra realidade social, diferente daquela em que a principal tecnologia era a de motores – mecânica, portanto. Eu estou na trilha de Heidegger, embora ele não tenha colocado exatamente dessa forma, porque ele ainda não tinha a visão do computador.

Mas se pensarmos que as próteses acompanham o homem há muito mais tempo, estamos falando, portanto, de próteses diferentes e que, consequentemente, instauram um novo ambiente, um novo socius? É sobre este ambiente, em que prevalecem máquinas digitais, que você vai tratar?
Muniz Sodré – Esse ambiente, para mim, é fundamental para falar de uma ciência da comunicação hoje, pois não se trata de ter como objeto a televisão, o rádio, ou mesmo o celular, o computador. Não se trata desses objetos parcelares, não é isso que faz o objeto da comunicação, para mim. O que faz é a ambiência nova onde esses objetos circulam. Então, para pensar a comunicação com esses objetos, eu tenho que pensar numa ecologia da mídia, na mídia como um dispositivo ecológico, como uma nova armação ecológica do mundo.

E é isso que leva ao conceito de midiatização?
Muniz Sodré – A midiatização, portanto, é um conceito ecológico. O bios virtual, esse conceito que eu introduzi, é ecológico. A novidade é a palavra virtual, porque deixo bem claro que peguei isso em Aristóteles, logo no início da Ética a Nicômaco, onde ele fala de orientações existenciais necessárias que movimentam a vida do homem na polis. Quer dizer, a vida social do homem dentro da cidade-Estado grega. Essa orientação existencial diz respeito a comer bem, a ter amigos, sobre sexo, festas, a que ele dá o nome de bios. Aí estamos no bios apolaustikos, que é o bios dos prazeres. Mas é prazer no sentido muito amplo, indo do sexo à amizade, ou à sensibilidade que temos em relação ao mundo, às coisas. Mas não há apenas a bios apolaustikos; há várias orientações existenciais na cidade, como a sociabilidade, a política, que definem o bios politikos. Portanto, há uma orientação existencial para isso. Mas se a orientação é conhecer, é ser filósofo, é aprender, ser cientista, aí temos o bios theoretikos. Para Aristóteles, essas três orientações definem o grego dentro da polis. Então, cada bios significa exatamente uma orientação existencial. Podemos figurar isso, através de um desenho, com um círculo, no qual o grego se movia, predominantemente por uma orientação ou por outra. Pegamos então Platão e, claro, concluímos que ele era theoretikos, mesmo sabendo que ele participava de festas. E mais: todos os gregos guerreavam; se fosse guerra, sabiam lutar. Mas Aristóteles falava de um quarto bios. Foi esse o meu achado. Agora, muitos anos depois, eu diria que as pessoas estão começando a prestar mais atenção nesse conceito. Isso não é uma grande invenção, Baudrillard falava dele como telemorfose, Deleuze fala da sociedade do controle, mas ainda tem uma coisa de poder aí… Falei de bios virtual, mas poderia ter usado qualquer outro termo. Houve um livro meu em que eu falava de telerrealidade [A máquina de Narciso: televisão, indivíduo e poder no Brasil. São Paulo: Cortez, 1990]. Eu peguei uma coisa clássica, que é o termo de Aristóteles. O acerto é que Aristóteles fala desse quarto bios. Ele diz que poderia haver um quarto bios, mas neste caso não está comprometido com a felicidade humana dentro da polis. Por isso, ele não considerou, mas poderia ver que é o bios do comércio.

“Se o bios virtual é um primeiro objeto da
comunicação, o segundo é a comunidade.”

E hoje temos, então, esse quarto bios?
Muniz Sodré – Temos, me valendo de Aristóteles na questão do comércio, na questão do mercado. E mais a questão de outro território, ou outra ambiência, que é a virtual, criada por máquinas. Então, para mim, esse bios, na verdade, não é o único objeto comunicacional, mas é um objeto por excelência dos estudos de comunicação. Dentro desse bios, pode-se convocar, como a Antropologia convocava no passado, qualquer outro saber. Mas nenhum outro saber tem esse bios como objeto.

Em função desse quarto ambiente, é isso que o leva a dar destaque à questão do afeto?
Muniz Sodré – Esse quarto ambiente se destaca pela impessoalidade. É abstrato e impessoal. Por mais que usemos o celular para falar com outras pessoas, que enviemos e-mails, essas relações são de contato. É uma relação pessoa-pessoa, mas é uma pessoa abstrata. Você pode nem estar vendo. Relação de pessoalidade mesmo é a que temos com esposas, namoradas, filhos, com amigos, com pessoas que conhecemos, de que gostemos ou não, pois é também uma relação de pessoalidade. De repente, alguém que é impessoal fica pessoal. Essas relações impessoais são cada vez mais vitais dentro de um bios que é virtual, que é impessoal quase por inteiro. Ora, essa pessoalidade decorre do comum, daquilo que cimenta as relações entre as pessoas. Esse comum, portanto, é o da comunidade. Se o bios virtual é um primeiro objeto da comunicação, o segundo é a comunidade. Porque não é a comunidade tradicional, das relações estreitas que estão no morro, na favela, no bairro. Não é isso. É a comunidade que preexiste a toda e qualquer relação social como cimento, como atração, como cola da relação humana. Quer dizer, não é possível não viver em comunidade. Ou seja, é impossível não viver em comunidade. Assim como é possível dizer: é impossível não se comunicar. Um eremita pode não falar, mas ele está se comunicando. Ou os monges trapistas, que fazem votos de silêncio, mas estão com roupa de padre, andando em um convento, têm de comer. Claro que eles estão se comunicando. A comunicação deles é absoluta; agora a fala, não. Comunicação não é fala, não é transmissão de mensagens. Há outra visão de comunicação que está no comum, na sociedade. Eu trago essa outra visão – e em outro trabalho que estou preparando –, que é o que, em latim, chama-se communicatio. Essa é uma noção teológica da Idade Média, refere-se a essa coisa que está no fundo do comum e da comunidade, que não é a relação social, que a Sociologia estuda, mas é o vínculo, a vinculação. Uma coisa é a relação social, outra coisa é a vinculação.

E a vinculação hoje está se dando em outros termos…
Muniz Sodré – A vinculação está aí mais do que nunca. Se não houvesse vinculação, não poderíamos estar falando aqui agora. Se não houvesse vinculação, não seria possível montar todo esse sistema de comunicação. O que nos põe juntos socialmente? Não é a mídia. A mídia nos faz trocar palavras, nos dá informações, mas tem uma coisa maior que vem do comum. Esse comum é o vínculo. O que nos põe perto de nossos pais e mães, além do fato de sabermos que nascemos deles? Com o passar do tempo, deixamos de ser bebês, nossas mães não mais nos amamentam, mas somos capazes de morrer por elas. Então é dívida simbólica, elas estão nos cobrando pelos cuidados? Não, elas não nos cobram nada. Aliás, elas gostariam de morrer em nossos lugares. Então esse vínculo é instintivo, uma pulsão de proximidade, diferentemente da relação social, que está na cabeça, é jurídica, psicológica, econômica. O vínculo atravessa nossos corpos e ele pode repousar em crença, proximidade, vizinhança. A vinculação é anterior ao discurso, é uma pré-estrutura. Foi isso que Heidegger chamou de Befindlichkeit, quer dizer situação afetiva, tonalidade afetiva. Eu estou tornando um pouco mais claras, acho, essas noções de Heidegger e Schiller, porque quando se fala em Heidegger pensa-se no hermetismo… O sensível e o afeto estão na base de toda e qualquer comunicação possível. São a base, o centro. Sem isso, não há nada, não há sociabilidade. E esse afeto está no cerne disso que se chama communicatio, pois esta é uma relação dialógica estrutural, de diálogo, de estrutura, na base do social, que entre os romanos era definida pelo dia da relação dos homens com os deuses. Ora, nós não temos deuses para fundar a sociabilidade moderna. Na sociedade moderna, o social acaba com isso. Nós podemos ter a relação social, com deus e afeto, mas não na base. Não é isso que funda a sociabilidade. Ou seja, nós achamos que temos o social, mais o afeto. Acha-se que o afeto se agrega para facilitar a compreensão, mas minha hipótese não é essa; na verdade, é que a compreensão e o afeto estão na base, sem deus, não precisa de deus. Essa base, esse diálogo, portanto, é tanto a possibilidade de falar – só que falar é um momento desse diálogo –, quanto é simplesmente cimentar, colar. Então a comunicação é tanto falar quanto fazer. Esse cimento, esse diálogo estrutural, faz alguma coisa. A comunicação faz, as palavras fazem. Então as palavras são instrumentos. Essa coisa toda da internet, da mídia, para mim, cria outra ambiência como instrumentalidade humana. Só que o instrumento, quando ele cresce, pode, digamos, ultrapassar a dimensão humana que nós temos e pode nos pensar, nos orquestrar. Voltamos aqui a Heidegger, que diz: “o homem acha que é ele quem pensa, ele é pensado pela linguagem”. Quando essa dimensão técnica vem, de repente ela pode tomar o primeiro passo e nos pensar por inteiro. E pensar o modo como a máquina pensa, o modo racional e calculado. Portanto, eu acho que a ciência da comunicação é a possibilidade, politicamente, filosoficamente, de termos uma medida humana da relação com a máquina.

Retomando ao tema da falta de contorno da área de comunicação, você acha que a Teoria do Jornalismo pode representar uma contribuição para uma possível ciência da comunicação?
Muniz Sodré – Eu vejo como contribuição, sem dúvida nenhuma. Mas é uma contribuição que não substitui a ciência da comunicação. Dentro do pensamento da comunicação, ela é um setor, uma região de uma ciência da comunicação para pensar como é que, no quadro do jornalismo, de tradição liberal enorme e que tende a ser visto apenas como prática corporativa, não se confunde, em princípio, com a própria prática jornalística e pode até ajudar, eventualmente, essa prática jornalística, de forma a mostrar caminhos, apontar políticas. Eu acho que uma Teoria do Jornalismo é um momento de uma ciência da comunicação e acho utilíssima, importantíssima. Eu tentei esboçar isso um pouco no meu livro A Narração do Fato.

Temos visto a digitalização das práticas e dos produtos jornalísticos e uma cada vez maior relação com as redes sociais, além do novo lugar participativo que os receptores têm assumido. Qual a sua análise desse novo cenário para o jornalismo?
Muniz Sodré – Eu acho que todo ambiente novo, toda técnica nova, nos lança inicialmente num estágio de grande confusão. Não é só com a digitalização, sempre foi assim. As máquinas no século XIX levaram ao ludismo, uma reação dos trabalhadores, que tomavam aquilo contra eles, contra o emprego. Eu acho que, no momento, o jornalismo ainda não sabe realmente o que fazer com isso, mas sente ao mesmo tempo essa relação nova com o público. Muitas vezes nós não sabemos, mas sentimos, individualmente, o afeto que está no communicatio. O grupo também. Quando se está no grupo, este às vezes não sabe, mas sente. E pode até ser um grupo profissional, um grupo corporativo. O grupo sente que o caminho é esse, que não há como evitar a relação, não há como evitar a incorporação dessa dimensão, porque não é um instrumento como qualquer outro. Ele é hoje o instrumento, porque ele se desenha como o caminho dentro da ambiência que ele mesmo criou. Ou seja, o jornalista e a empresa jornalística hoje estão dentro do bios e o território do bios é feito das antigas, mas também das últimas tecnologias, com as últimas dominando. Sempre foi assim com relação ao jornalismo. Quando o telégrafo entra em cena, muda a forma de fazer jornal. O lead aparece como uma decorrência do telégrafo. Depois vêm os teletipos, instrumentos, portanto, que mudam o texto. Depois vem o rádio, a revista, que vão mudando o jornal. Depois acontece o crescimento do público urbano e, com ele, a necessidade de dar jornal mais racional, acabando com o nariz de cera. Então, são as tecnologias, a própria técnica, que afetam a textualidade dos meios de comunicação. Não é nenhuma epistemologia, como parece indicar um livro que as pessoas leem muito, que é O segredo da pirâmide [: para uma teoria marxista do jornalismo. Porto Alegre: Tchê, 1987], do Adelmo Genro Filho. É uma obra interessante, com a qual ele traz a epistemologia marxista para o jornalismo e parece dar uma dignidade muito grande à questão, dar uma dignidade científica ao tema, e interessou muito às pessoas. É inteligente, mas, no meu entender, não há nenhuma epistemologia marxista. Epistemologia tem a ver com ciência. Efetivamente, o que há no jornalismo é a própria técnica e o progresso técnico do jornalismo, o aumento dos públicos, o crescimento da ambiência do jornal pensando a prática, forçando a prática a se repensar. O próprio mercado, que em função da captação de atenção, faz com que se repense a maneira de se introduzir mensagem.

E isso vai transformar as formas como se dão as relações com os usuários, de acordo com um tipo de leitor mais participativo, que pode se expressar através da internet?
Muniz Sodré – Sem dúvida. Não é possível mais fazer jornalismo hoje sem contar com essa possibilidade de participação do usuário, pela maneira como os jornais estão dando destaque agora às cartas dos leitores, como esses jornais fazem acompanhar os seus textos de plataforma digitais para a participação do leitor. Eu acho que tudo isso é consequência do bios, está dentro do bios. Agora eu digo que a questão da comunicação, do ponto de vista de ciência, política, é um pouco mais embaixo. Eu acho que é preciso pensar o comum, a comunidade, para podermos pensar politicamente.

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