Abertas as inscrições para o Prêmio Adelmo Genro Filho

SBPJor

As inscrições para a 11ª. Edição do Prêmio Adelmo Genro Filho (PAGF) de Pesquisa em Jornalismo já estão abertas e vão até o dia 10 de julho. Para a edição de 2016, poderão concorrer os trabalhos defendidos em 2015, de 01 de janeiro a 31 de dezembro, nas categorias Iniciação Científica/TCC, Mestrado e Doutorado.

O Prêmio PAGF foi criado em 2004 pela Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor), para valorizar de forma individual as contribuições relevantes para o campo da pesquisa em jornalismo.

A jornalista Claudia Quadros está na coordenação geral do Prêmio Adelmo Genro Filho 2016. Professora do Programa de Pós-graduação em Comunicação da UFPR, ela já foi vice-presidente e diretora científica da SBJor.

As comissões julgadoras de cada uma das categorias do PAGF são compostas por membros designados pela coordenação do PAGF conjuntamente com a diretoria e integrantes do Conselho Científico da SBPJor. A comissão julgadora deliberará pelo voto da maioria de seus membros. Na categoria sênior, a escolha é feita pela diretoria e pelo Conselho Científico da SBPJor, mas todo sócio da SBPjor pode enviar uma indicação ao PAGF até 10 de julho. Nesta categoria, é considerada a trajetória acadêmica e a contribuição do pesquisador para o campo do Jornalismo.

A Comissão julgadora do Prêmio PAGF avaliará os trabalhos até 30 de setembro de 2016. A entrega do Prêmio será feita durante o 14º. Encontro Nacional da SBPJor, que acontece entre os dias 9 e 11 de novembro de 2016 na Unisul, em Palhoça, Santa Catarina.

Acesse a Ficha de Inscrição e o Regulamento.

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Bolsas de estudos para a Austrália

Existe uma maneira de realizar seu sonho de estudar na Austrália com bolsa e todos os custos incluídos: o programa Endeavour Scholarships & Fellowships. O programa Endeavour do governo australiano oferece, anualmente, bolsas integrais a candidatos do mundo todo, em qualquer área de conhecimento e de qualquer idade. A seleção é bastante
competitiva e se baseia no mérito (acadêmico/profissional) para escolher seus finalistas.

Há quatro categorias de bolsas no programa: Postgraduate Scholarship – para estudos completos de especialização ou mestrado de até dois anos (Master bycoursework ou Master by research, respectivamente), ou de doutorado de até quatro anos; Research Fellowship – para pesquisa (de quatro a seis meses) de pós-doc ou dentro de um programa de mestrado
ou doutorado iniciado no país de origem; Vocational Education and Training (VET) Scholarship – para desenvolvimento de habilidades ocupacionais ou relacionadas ao trabalho em cursos técnicos de até dois anos e meio; e Executive Fellowship – para pressionais em níveis avançados de suas carreiras que queiram uma oportunidade para desenvolvimento profissional, estágio executivo ou visita técnica de até quatro meses na Austrália.

Brasileiros na Austrália!
Este ano, 12 brasileiros estão indo para a Austrália com bolsas do programa Endeavour para estudar e pesquisar em algumas das melhores universidades do mundo. Para mais informações sobre estudar na Austrália, visite http://www.studyinaustralia.gov.au/brazil.

Para participar da edição 2017 do Endeavour Scholarships & Fellowships, é necessário, entre outros requisitos, já ter concluído um curso de graduação, além de apresentar certificado de proficiência em língua inglesa e uma carta de aceite de uma universidade ou instituição australiana.

Inscrições 2017
As inscrições para 2017 poderão ser feitas de abril a 30 de junho de 2016. Para conhecer os critérios de elegibilidade e os demais requisitos, visite: http://internationaleducation.gov.au/Endeavour. Para demais dúvidas, contate
education.brasilia@dfat.gov.au.

 

 

Política sem teorias

Folha de S. Paulo

THAIS ARBEX
REINALDO JOSÉ LOPES

 “Também lamento muito pela menção negativa à sociologia. Quanto mais estudo, mais compreendo que as ciências humanas são fundamentais”, disse a presidente da SBPC, bioquímica Helena Nader.

Durante a última reunião com seu secretariado, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), criticou a Fapesp (Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo), principal órgão de financiamento à ciência no Estado, por priorizar estudos sem utilidade prática.

Pensador, personificação da filosofia (Wikipédia)

A informação foi revelada pela coluna Radar On-line, da “Veja”. Segundo a revista, Alckmin fez críticas à falta de apoio a estudos para o desenvolvimento da vacina da dengue e também ao incentivo a pesquisas de sociologia.

A Folha confirmou a fala do governador, que disse que a Fapesp vive numa bolha acadêmica desconectada da realidade, financia estudos que muitas vezes não têm nenhuma serventia prática e gasta sem orientação maior. Procurado, o Palácio dos Bandeirantes não quis comentar.

Os dados oficiais sobre o destino dado às verbas da Fapesp em 2015, porém, não corroboram a afirmação de Alckmin de que o órgão privilegia projetos de sociologia ou “projetos acadêmicos sem nenhuma relevância”.

Do total de desembolsos (R$ 1,18 bilhão), apenas 10% foram destinados à área de ciências humanas e sociais (excluindo arquitetura e economia, que recebem, somadas, pouco mais de 1% do total). Quase 30% dos gastos do órgão em 2015 foram destinados a pesquisas na área de saúde (veja infográfico).

Embora o governador tenha condenado a suposta falta de apoio da Fapesp ao desenvolvimento da vacina da dengue no Instituto Butantan, a fundação desembolsou cerca de R$ 2 milhões para custear esses estudos entre 2008 e 2011.

Logo depois que a associação entre o vírus zika e o surto de microcefalia em bebês brasileiros foi detectada, o órgão aprovou recursos adicionais da ordem de R$ 500 mil para projetos de virologia já em andamento que pudessem investigar o mistério.

Neste ano, em parceria com a Finep (órgão federal), a Fapesp lançou um edital no valor de R$ 10 milhões para pequenas empresas que busquem desenvolver tecnologias contra o zika e o mosquito Aedes aegypti.
Procurada, a Fapesp preferiu não comentar as críticas feitas por Alckmin.

PESQUISA BÁSICA

“Eu sinceramente espero que essa declaração tenha sido citada fora de contexto, porque ela não é compatível inclusive com a formação acadêmica e com o histórico do governador”, disse à Folha a bioquímica Helena Nader, presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), que declarou estar “chocada” com as críticas de Alckmin à Fapesp.

A pesquisadora lembrou que descobertas que estão na base da biotecnologia moderna, como a decifração da estrutura em dupla hélice (ou “escada torcida”) do DNA, em 1953, não pareciam ter nenhuma aplicação prática quando foram feitas. “Também lamento muito pela menção negativa à sociologia. Quanto mais estudo, mais compreendo que as ciências humanas são fundamentais”, disse Helena.

Para Ana Lúcia Vitale Torkomian, diretora executiva da Agência de Inovação da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), a dicotomia entre pesquisa aplicada (que supostamente “serve para alguma coisa”) e pesquisa “puramente acadêmica” é falsa.

“Nenhum país é capaz de sustentar o desenvolvimento tecnológico a longo prazo sem pesquisa básica forte”, afirma ela. “Além disso, hoje a distância entre a pesquisa básica e a inovação tecnológica está muito mais curta, as descobertas ganham aplicações com maior velocidade.”

Ela cita o fato de que, na UFSCar, as pesquisas em química e física (em tese, puramente “acadêmicas”) estão entre as que mais rendem patentes, ou seja, ideias prontas para serem transformadas em produtos.

O governador “parece estar mal assessorado, mal informado ou ambos”, disse à Folha o sociólogo Rodrigo Augusto Prando, professor do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas da Universidade Presbiteriana Mackenzie. “Os políticos usam e abusam de conhecimentos oriundos da sociologia em suas estratégias de campanha e suas ações públicas.”

Para Prando, não se pode descartar a possibilidade de que o governador tenha “sutilmente” ironizado Fernando Henrique Cardoso, um do principais sociólogos do país e oponente do governador dentro do PSDB.

3° Encontro Centro-Oeste de História da Mídia

nodebate – Cerca de 200 participantes são esperados no 3º Encontro Centro-Oeste da Rede Alcar de História da Mídia que acontecerá na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) nos dias 23 e 24 de junho. A realização é do Mestrado em Comunicação e do curso de Jornalismo da UFMS em parceria com a Associação Brasileira de Pesquisadoras da História da Mídia – Rede Alfredo de Carvalho (Rede Alcar).

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O evento tem como tema central Mídia, fluxos migratórios e diásporas: perspectiva histórica, que visa uma reflexão sobre a mídia e os grandes movimentos migratórios forçados, como os que veem ocorrendo na Síria e no Iraque entre outros países. Como subtema, serão discutidos os 55 anos da televisão na região Centro-Oeste – 55 anos em Goiás e 50 em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

Voltado a estudantes, professores, pesquisa-dores, profissionais e ao público em geral, o evento é estruturado em oito grupos temáticos nos quais serão apresentados trabalhos sobre a história do jornal e do jornalismo, do rádio, da televisão, da publicidade, da mídia digital e mídia alternativa.

MYRIAN SERRA VENCE ELEIÇÕES PARA REITORIA DA UFMT

Fonte Site Focaia

Após a apuração dos votos para a eleição de reitor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), a professora Myrian Serra, obteve vitória na disputa contra o seu colega Paulo Teixeira, em segundo turno. A chapa 4, “UFMT: Diálogo e Ação”, atingiu 49,37% do total de votos, contra 47,01% da concorrente, chapa 2, “UFMT +50″.

A decisão, como se observa nos números, se mostrou apertada, somente conhecendo o vencedor no final da contagem. No entanto, o voto que definiu em favor de Serra foi aquele depositado pelos profissionais técnicos. Sendo que os docentes preferiram a chapa 2 com 16,92% e 15,16% para chapa 4, no caso dos discentes 16,45% contra 15,94%, respectivamente. Já os técnicos foram mais decididos com 13,63% para Teixeira e 18,26% para Myrian.

O presidente do sindicato dos professores da instituição Reginaldo Araújo, disse ao jornal A Gazeta de Cuiabá, que apesar dos candidatos serem do mesmo grupo, ainda assim, “Uma nova gestão sempre traz expectativas de que seja um novo momento, com novas possibilidades de avançar nas questões que consideramos importantes”.

Como procedimento será apresentado ao governo federal uma lista contendo nomes de reitores para análise da presidência da república. Apesar das interferências políticas no passado, de governos centralizadores, nos últimos anos para cá, o chefe do executivo federal apenas ratifica o vencedor internamente. A nova gestão ficará no comando da instituição até 2020.

A posse da nova reitoria ocorrerá no dia 26 de outubro. Neste momento de transição deverá haver alternância de pessoas em cargos de confiança nos quatro campi da UFMT. Neste sentido, no Campus Universitário do Araguaia, o atual pró-reitor, deverá ceder a função a outro nome a ser escolhido, em tese, pela nova reitora. No entanto Serra em campanha foi mais enfática do que o seu adversário, ao afirmar que o pró-reitor de campus deve sair da escolha dos seus pares, ou seja, dos professores, técnicos e estudantes. Porém, não parece uma questão simples de resolução.

Para que haja a alternância no poder é preciso saber da decisão do pró-reitor José Marques pessoa, com vários mandatos no cargo de confiança da reitoria, com amplo diálogo com Cuiabá. Nos bastidores, pelo menos os docentes ainda não mostram articulados na definição do representante, no comando das unidades de Barra do Garças e Pontal, o que deve ocorrer, agora, após a definição do novo reitor.

Nos corredores, o atual pró-reitor afirma que já venceu o seu prazo no cargo. Atingiu os seus objetivos com sucesso, com implantação de projeto, idealizado ao longo do tempo em que esteve à frente do Campus Araguaia. Desta forma, espera que em breve surja um nome para sucedê-lo, e, ressalta, informalmente, não ter a intenção de interferir nas escolhas.

Professor produtivista

Fonte ANDES

Produtivismo acadêmico está acabando com a saúde dos docentes

 A quarta mesa do Seminário Ciência e Tecnologia no Século XXI, promovido pelo ANDES-SN em novembro (2015), em Brasília, debateu o “Trabalho docente na produção do conhecimento”. As análises abrangeram tanto a produção do conhecimento dentro da lógica do capitalismo dependente brasileiro, até o efeito do produtivismo acadêmico na saúde dos docentes.

Participaram dessa mesa, o ex-presidente do ANDES-SN e professor do departamento de educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Roberto Leher; a assistente social e também professora da UFRJ Janete Luzia Leite; e a professora visitante do curso de pós-graduação em serviço social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro Maria Ciavatta.

Leher iniciou sua fala lembrando que a universidade brasileira, implantada tardiamente, tem sua gênese na natureza do capitalismo dependente brasileiro. E é essa matriz que vai determinar o conhecimento gerado academicamente. “Também não podemos esquecer que a produção do conhecimento tem sido re-significada. Hoje, não há mais a busca da verdade, mas, sim, a sua utilidade. Sem contar que o conhecimento é uma forma de domínio, como já disseram Kissinger, Fukuyama e Mcnamara”, argumentou.

“Diante disso, está fora de lugar a perspectiva de que a universidade tem um caráter iluminista. Àquela aura do professor universitário intelectual não mais se sustenta”, constatou.

Para Leher, antes havia a valorização da cultura geral, em que era comum encontrar um físico escrevendo sobre arte. Essa ideia, no entanto, não ocorre mais na universidade submetida à lógica utilitarista e pragmática. “É a expropriação do trabalho acadêmico”, criticou.

No Brasil, esse processo foi iniciado com a ditadura militar, que centralizou no Ministério do Planejamento os programas de apoio científico e tecnológico. Como o governo precisava direcionar a inteligência na perspectiva desenvolvimentistas do país, mas queria silenciar a universidade, passou a utilizar-se dos editais para direcionar as pesquisas.

Desde então, mas, principalmente, a partir de 2000, a maioria dos recursos destinados à pesquisa foram se deslocando para o que passou a ser chamado de inovação. A hipótese de Leher é de que como Brasil é dependente e como os doutores formados nas universidades não conseguem empregos na iniciativa privada, a universidade está sendo re-funcionalizada para fazer o serviço que as empresas não querem fazer.“Isso se dá nas ciências duras, mas também nas ciências sociais. É o que explica, por exemplo, o tanto de editais para formar professores à distância, ou para fazer trabalho nas favelas. É a universidade oferecendo serviços”, exemplificou.

“Diante dessa pressão em oferecer serviços, em produzir, o professor que levar dois anos para concluir um livro é expulso da pós-graduação”, denunciou Leher.

A saída para essa situação está na aliança do movimento docente com os movimentos populares. “Ao contrário do que ocorreu em épocas anteriores, em que parcelas da burguesia apoiaram projetos de uma universidade mais comprometida com os povos, hoje eles estão preocupados em inserir cada vez mais a instituição na lógica do mercado”, constatou. “Temos, portanto, de construir um arco de forças políticas no movimento anti-sistêmico, ou seja, com movimentos como a Conae e o MST”, defendeu.

Esse diálogo vai exigir da academia, no entanto, um esforço epistemológico e epistêmico. “Se queremos o MST como aliado, por exemplo, temos de produzir conhecimento que trate, por exemplo, da agricultura familiar”, argumentou.

Qualidade no ensino
A professora Maria Ciavatta também criticou o produtivismo acadêmico ao qual estão submetidos os docentes universitários. “Numa recente publicação do ANDES-SN, li a seguinte frase, que reflete muito bem o atual estado em que nos encontramos: ‘antes, éramos pagos para pensar, agora, somos pagos para produzir’. Achei essa definição ótima”, afirmou.

Ciavatta argumentou que a baixa qualidade do ensino decorre, diretamente, da insuficiência de recursos, responsável pelos baixos salários pagos aos professores. Disse, também, que o Brasil não tem políticas públicas para educação, mas programas de governo.

Ela criticou veementemente o Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico) do governo federal. “O discurso é o mesmo dos anos 90, de que precisamos treinar os jovens pobres porque eles precisam de trabalho. Ocorre que esses jovens, por não saberem o básico, também não aprenderão nada nos cursos técnicos”, previu.

“O que temos de defender é a universalização do ensino médio público, gratuito, de qualidade e obrigatório. Temos de responsabilizar o Estado nessa questão”, defendeu.

Ciavatta criticou a banalização do termo pesquisa. “Todos os professores têm de ser pesquisadores, quando, na realidade, a pesquisa científica exige um tempo para pensar”, argumentou. “A pesquisa é encarada como toda E qualquer busca de informação”, constatou.

Após citar os artigos da Lei de Diretrizes e Bases (LDB) que tratam da pesquisa, ela apontou a baixa qualidade do ensino como um empecilho. “A sofisticada proposta da LDB não se faz com alunos semi-analfabetos. Não basta a alfabetização funcional de muitos e a especialização de poucos. A inovação requer a generalização da cultura científica”, diagnosticou.

Para Ciavatta, a privatização das universidades públicas, com a criação de cursos pagos, se deu a partir do achatamento salarial dos anos 90, o que acarretou maior carga horária dos professores, precarização das relações de trabalho, produtivismo induzido e  individualismo.  “Sou de uma época em que líamos os trabalhos dos colegas. Hoje não temos mais tempo”, lamentou.

A eficiência prescrita e o produtivismo induzido limitaram, segundo ela, a democracia e a autonomia da universidade.

Para a pesquisadora, o viés positivista e mercantilista é que está pautando a produção do conhecimento. “O direito à educação está sendo substituído pelo avanço do mercado sobre a educação, que está sendo vista como um serviço”, afirmou.

Saúde dos docentes
O produtivismo acadêmico está tirando a saúde dos docentes das universidades públicas brasileiras. Essa é a principal constatação feita por estudo da professora do curso de Serviço Social da UFRJ Janete Luzia Leite. “Antes, a docência era vista como uma atividade leve. Agora, está todo mundo comprimido”, afirmou.

A causa dessa angústia está na reforma, feita em 2004, na Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). “Aliada ao Reuni, as mudanças na Capes foram um verdadeiro ataque à autonomia universitária”, denunciou.

O resultado foi a instituição de dois tipos de professores: o pesquisador, que ensina na pós e recebe recursos das agências de fomento para fazer suas pesquisas e o que recebe a pecha de “desqualificado”, que ficou prioritariamente na docência de graduação e à extensão. Esses, em sua maioria, são recém-contratados e terão suas carreiras truncadas e sem acesso a financiamentos.

Para Janete, os atuais docentes estão formando em seus alunos um novo ethos, em que é valorizado o individualismo, ocultada a dimensão da coletividade e naturalizada a velocidade e a produtividade.

Há, também, um assédio moral subliminar muito forte, que ocorre, principalmente, quando o docente não consegue publicar um artigo, ou quando seus orientandos atrasam na conclusão do curso. “Com isso, estamos nos aproximando de profissões que trabalham no limite do estresse, como os médicos e motoristas”, afirmou.

O resultado é que os docentes estão consumindo mais álcool, tonificantes e drogas e estão propensos à depressão e ao suicídio. “É um quadro parecido com a Síndrome de Burnout, em que a pessoa se consome pelo trabalho. Ocorre como uma reação a fontes de estresses ocupacionais contínuas, que se acumulam”, explicou Janete Leite.

O problema, segundo ela, é que as pessoas acham que seu problema é individual, quando é coletivo, além de terem vergonha de procurar o serviço médico. “Com isso, elas vão entrando em suas conchas, temendo demonstrar fragilidades”.

Como forma de mensurar o nível de estresse dos docentes, a pesquisadora da UFRJ começou a fazer uma pesquisa nesse campo. Junto com um grupo de aluno, ela entrevista professores dispostos a falar de seus problemas.

“A primeira constatação que fiz é que as pessoas estão ansiosas para falar sobre seus problemas. Nossas entrevistas não duram menos do que uma hora e meia”, contou.

Já foi possível concluir que a atual realidade tem provocado sintomas psicopatológicos, como depressão e irritabilidade; psicosomáticos, como hipertensão arterial, ataques de asma, úlceras estomacais, enxaquecas e perda de equilíbrio; e sintomas comportamentais, como reações agressivas, transtornos alimentares, aumento de consumo de álcool e tabaco, disfunção sexual e isolamento.

Tudo isso, para Janete Leite, decorre da pressão atualmente feita sobre o docente. “O nosso final de semana desapareceu, pois temos de dar conta do que não conseguimos na semana, como responder e-mails de orientandos, ou escrever artigos”, afirmou.

Para ela, é preciso que haja uma reação dos docentes a esse processo. “Caso contrário, seremos uma geração que já está com a obsolescência programada”, previu.

Walter Benjamin não pode ser mais um fetiche cultural

Fonte Diário oficial de Pernambuco

Categoria: Entrevistas; Publicado: Segunda, 26 Janeiro 2015 21:00; Escrito por Paulo Carvalho.

Foto por Yuri Tavares/DivulgaçãoPara Jeanne Marie Gagnebin, uma das mais reconhecidas e admiradas pesquisadoras da obra de Walter Benjamin, deveríamos resistir à tentação de transformar os escritos do pensador alemão em mais um fetiche, em mais um “bem cultural” circulando em um sistema de consumismo cego, de mera acumulação, cuja lógica esvaziada foi justamente o alvo de um pensamento essencialmente questionador, crítico e subversivo. Gagnebin conversou com o Pernambuco sobre o seu mais recente livro, Limiar, aura e rememoração: ensaios sobre Walter Benjamin, publicado pela Editora 34, em que aborda temas centrais em Benjamin tais como a escrita, a morte, a transmissão, a atenção e a dispersão, o messianismo e a experiência histórica na modernidade.

 

De origem suíça, mas residente no Brasil desde 1978, Gagnebin faz parte de uma tradição de estudos benjaminianos brasileiros, reconhecida inclusive na Alemanha, cuja densidade afirma o dever de também tentar “nos ler e nos criticar”, para além de conhecer os demais comentadores de Benjamin. Na entrevista, a pesquisadora critica duramente a produção acadêmica voltada exclusivamente para Currículo Lattes e reafirma o papel central dos professores no despertar intelectual dos novos acadêmicos. Gagnebin é autora dentre outros de Walter Benjamin: os cacos da história (Brasiliense, 1982), História e narração em Walter Benjamin (Perspectiva, 1994), Sete aulas sobre linguagem, memória e história (Imago, 1997) e Lembrar escrever esquecer (Editora 34, 2006).

 

No texto “Estética e experiência histórica em Walter Benjamin” a senhora fala sobre o risco de reduzir o filósofo a “belos livros de Walter Benjamin”.  Gostaria que a senhora comentasse sobre como o mercado editorial de língua portuguesa trata o pensamento benjaminiano hoje.  Ainda temos muitos problemas em torno das traduções? Há comentaristas que a senhora gostaria de ver traduzidos com mais urgência? (Acompanhando as notas do seu livro penso ter algumas indicações para essa resposta…) Algumas traduções já editadas precisam ser refeitas ou revisadas?

São muitas questões juntas! As obras de Walter Benjamin demoraram a cair no domínio público porque ele morreu durante a Segunda Guerra: são 70 anos de prazo depois da morte, neste caso. Até o fim de 2010, a Editora Suhrkamp, em Frankfurt, detinha os direitos autorais sobre obra e traduções, exigindo que todas obras de Benjamin fossem traduzidas segundo e seguindo a ordem das Gesammelte Schriften dessa editora (“Escritos reunidos” – não são “Obras completas” porque muita coisa se perdeu e talvez possa ser encontrada ainda!). Isso complicou muito as traduções. Em Portugal, João Barrento traduziu muitos desses volumes, republicados hoje na Editora Autêntica.

São boas traduções, mas seguem essa ordem imposta pela Editora Suhrkamp, que não é necessariamente a mais sensata. A partir de janeiro de 2011, temos um “boom” de traduções de W. Benjamin no Brasil. De maneira desconectada, repetindo textos, muitas vezes. É estranho que não se consiga chegar a um acordo, mas esse é um problema maior: o de uma discussão intelectual maior entre os vários pesquisadores e tradutores de Benjamin. Pessoalmente, tento ajudar na edição crítica empreendida pela Editora 34. O próximo volume deve trazer textos ligados à filosofia da história, com notas críticas. A Editora Brasiliense está tentando reeditar os três volumes pioneiros publicados nos anos 80 com revisões. Infelizmente, até agora, me parece que essa revisão poderia ter ficado mais cuidadosa.

Pessoalmente, gostaria muito de ver uma tradução literária bonita tanto da Infância em Berlim por volta de 1900 como do primeiro esboço desse texto, a Crônica berlinense. E também da Correspondência de Benjamin, mas isso demora muito.

Devemos cuidar para não cair nem no extremo do valor mercadológico de obras conhecidas (há, por exemplo, duas edições recentes da segunda versão, finalmente reencontrada no arquivo Max Horkheimer, do ensaio sobre “A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica”, me parece demais!) nem no outro extremo: a erudição pela erudição. É imprescindível tentar sempre fazer traduções anotadas que indicam o contexto político e histórico dos textos. Em suma: tentar não transformar Benjamin em mais um fetiche cultural, mas cuidar do aspecto questionador, inquieto, sim, subversivo do seu pensamento. Todo seu pensamento lutou contra essa fetichização da cultura e da escrita.

Em relação aos comentadores. Primeiro, acho que devemos, no Brasil, cuidar de ler melhor a nós mesmos: há já uma tradição benjaminiana brasileira, reconhecida até na Alemanha, deveríamos tentar nos ler e nos criticar (cordialmente, mas nos criticar sim) mais. No meu último livro, cito várias obras de referência em alemão, é bem verdade. Aí não sei se devemos traduzi-las… Ou insistir para que mais estudiosos estudem alemão e possam ler toda essa literatura em alemão! Agora, o volume Walter Benjamin, Memória, organizado por Uwe Steiner para o centenário de Benjamin em 1992 , poderia ser bem traduzido com seus ensaios quase “clássicos” de grandes comentadores.

Espero que ainda neste ano saia, pela Editora 34, a tradução de um belo livro sobre W. Benjamin do poeta catalão Vicente Valero: Experiência e Pobreza. Walter Benjamin em Ibiza.

Em 2012, numa fala sua aqui no Recife, achei interessante com a senhora criticava algumas apropriações que fazemos de conceitos de Benjamin. A senhora falava sobre a noção, achatada, que se costuma ter do conceito de “melancolia” em Benjamin. Também comentou o nosso uso do termo “povo”, que não levaria em conta a ambiguidade desta palavra. Pareceu-me que a sensibilidade benjaminiana por vezes estava um tanto distante de nós, os brasileiros, ou, nós, os falantes de língua portuguesa. A pergunta que faço é: o que significa pensar Benjamin no contexto social, político, cultural brasileiro de hoje? O que seria exatamente na abordagem de temas históricos e artísticos brasileiros oferecer ao pensamento de Benjamin o mesmo tratamento que seu pensamento oferecia às ruínas do seu tempo?

Essa questão, no fundo, não diz somente respeito à “apropriação”, para retomar sua palavra, da obra e dos conceitos de Benjamin, mas é uma questão hermenêutica muito mais ampla. Ela se coloca cada vez que lemos ou estudamos textos escritos numa outra época e, igualmente, como você ressalta, em outra língua, porque se pensa de maneira diferente segundo as línguas que se fala… Por exemplo, se pensa diferente se você tem três gêneros (masculino, feminino, neutro) ou dois (masculino, feminino) ou nenhum. Ou se se fala do “ser” segundo a modalidade de “ser” e de “estar”, ou somente de sein ou d’être. Cada língua tem seus pressupostos metafísicos… e, também, históricos. A palavra “Volk” (povo) em alemão não pode ser usada mais de maneira inocente depois do nazismo e de ter ainda, na memória auditiva e afetiva, a voz de Hitler.

Agora, essas considerações podem até se estender a falas e textos da mesma língua e da mesma época. A filosofia pode nos ajudar a tomar sempre um certo recuo em relação ao uso dos conceitos, também das metáforas ou simplesmente das palavras comuns. É um cuidado interpretativo e crítico porque as nossas palavras não são simplesmente “instrumentos’, mas carregam junto associações históricas e semânticas (sem falar das inconscientes!) e visões do mundo como diziam os Românticos alemães.

Então, desculpe, mas não tenho certeza que devemos hoje, no Brasil, ter “o mesmo tratamento” em relação a temas artísticos ou históricos que Benjamin. Parece-me difícil, justamente porque é tão diferente. O que podemos, sim, reter de sua reflexão é a atenção pelas ações e expressões dos “oprimidos’, para usar uma palavra dele, isto é, expressões de resistência, de busca de outros caminhos, de esperança de outros mundos, também de desesperança. E a desconfiança em relação ao modelo atual, impositivo, de sucesso e de felicidade a qualquer preço, num sistema de consumismo cego e de exploração cada vez maior. Essas exigências são do pensamento de esquerda em geral. Benjamin também tem uma atenção singular pelo detalhe e pela espessura material da linguagem; ele mostra igualmente uma grande desconfiança em relação às construções totalizantes, mesmo ‘dialéticas”… Esse lado “filológico” seu me parece geralmente pouco valorizado e merece ser ressaltado, porque vai contra uma pressa e uma voracidade muitas vezes confundidas com “brilhantismo” intelectual.

Confesso que foi muitíssimo deleitoso ler o comentário da senhora sobre a imagem de Jeff Wall. Pergunto se a senhora gostaria de comentar algum outro trabalho contemporâneo em que enxerga aberturas para uma aproximação benjaminiana. Gostaria de falar um pouco da sua relação com a produção artística contemporânea?

Costumo falar para meus alunos que na discussão/briga entre Adorno e Benjamin sobre a perda da “aura” e a função utópica ou alienante do cinema, ambos podem nos ajudar: Adorno para entender o que é a “indústria cultural” que reina soberana na nossa sociedade; e Benjamin para entender as tentativas de práticas culturais e artísticas contemporâneas que se caracterizam muito mais pela “experimentação” do que pela criação de uma “obra” acabada e singular. Penso notadamente em todas as práticas como instalações, performances, atividades teatrais ou circenses ou cinematográficas lúdicas e efêmeras. A partir notadamente de suas reflexões sobre o teatro “épico’ de Brecht, mas também sobre o teatro de crianças proletárias (que ele conheceu a partir de sua amiga Asja Lacis), Benjamin tentou pensar mais em termos de “ordenação experimental” (Versuchanordnung) do que em termos mais clássicos de “obra de arte” (Kunstwerk).

Isso certamente nos ajuda a pensar as práticas artísticas contemporâneas que não podem mais ser lidas somente à luz de uma estética do belo e do sublime, mas que também apontam para algo como exercícios de alteridade e de transformação.

Pessoalmente, não sou especialista nem em artes plásticas nem em cinema. Gosto muito de um cineasta chinês, já bastante famoso apesar da juventude, Jia Zhangke (indico um livro recente de Walter Salles e Jean-Michel Frodon, O mundo de Jia Zhangke, CosacNaify, 2014). Quando vejo seus filmes, rodados geralmente com câmera digital, ágeis, ternos e cruéis, sinto um ‘ar de família’ com Benjamin. É um cinema documentário e de ficção, fala de pessoas comuns, anônimas, do conflito entre a tradição milenar e a modernidade acelerada, do campo que desparece e das megacidades, falam da tradição que vai desparecendo, mas que continua pesando como chumbo (como em Kafka), da memória afetiva e corporal, de tentativas de solidariedade, de tentativas de sobrevivência, de ‘linhas de fuga” que às vezes dão certo, na maioria das vezes não dão. São filmes ternos e contundentes sem grandes efeitos nem grandes discursos (daí talvez a importância de uma câmera mais leve). Há neles um gesto de atenção e de esperança triste que me lembra os textos e também a situação histórica de Benjamin, essa catástrofe que muda de semblante, mas que continua sob o manto da normalidade. “A construção histórica é dedicada à memória dos sem nomes” (“Dem Gedächtinis der Namenlosen ist die historische Konstruktion geweiht.” Walter Benjamin, Gesammelte Schriften I-3, p. 1243, Suhrkamp Verlag, Frankfurt/Main, 1974) diz Benjamin; talvez essa frase também possa definir práticas artísticas como o cinema de Jia Zhangke.

Mais perto de nós, claro, também penso num filme como Cabra marcado para morrer de Eduardo Coutinho, um grande filme sobre lutas, memória e transmissão, tentativas de soterrar essas lutas e essa memória.

No texto sobre “Limiar: entre a vida e a morte”, a senhora fala a respeito da digressão (pensar por “desvio”), um pensamento em que se abandone a “soberania do sujeito do pensar”,  e que possa, enfim, “pensar devagar”.   O que significa “pensar devagar” no contexto da academia brasileira hoje? Se os pesquisadores e professores são pressionados por certa lógica produtivista, a quem restou o papel de “pensar devagar”, hoje, no Brasil?

Pois é, ficamos todos escravos dos curricula Lattes e da contabilidade da Capes. Pode-se entender que essas avaliações todas tiveram origem numa tentativa de reduzir algumas práticas de malandragem e de picaretagem na vida acadêmica. Não sei se o conseguiram. Agora, também participam do produtivismo e da aceleração que caracterizam o capitalismo concorrencial. Em termos marxistas clássicos, é o triunfo do valor de troca sobre o de uso (para que tantas revistas, tantos artigos, até tantos livros que ninguém lê, mas que contam pontos na carreira de alguém?). A ciência se tonou uma indústria, uma “empresa”, um Betrieb como já diziam Adorno e Horkheimer nas primeiras páginas da Dialética do Esclarecimento.

Em termos de ensino no Brasil, uma vantagem consiste no fato que, graças ao CV Lattes, há uma certa ‘transparência’ sobre a vida acadêmica das pessoas. Mas é uma transparência opaca, porque não diz respeito nem à qualidade dos textos escritos nem à qualidade do ensino, a meu ver fundamental na atuação de um professor. Temos cada vez mais pesquisadores bastante restritos na sua temática (o que permite especialização, certamente, mas não necessariamente comunicação e transmissão dos saberes adquiridos) e cada vez menos professores felizes em ensinar, que saibam entusiasmar seus alunos e, ao mesmo tempo, exigir deles um esforço de questionamento e de aprofundamento. Ora, me parece que disso que o ensino brasileiro mais precisa desde o ensino fundamental até a pós-graduação: a alegria e a exigência no ensino e no aprendizado.

Sei que posso fazer essas críticas porque sou uma velha professora respeitada, em particular graças ao seu CV Lattes! Agora, para mim, o ensino da filosofia deveria ousar resistir a essa acumulação e a essa pressa, justamente porque é busca, crítica, proposta e inventividade, porque não sabe com certeza aonde vai, aonde o logos pode nos levar como diz Sócrates. Há vários anos escrevi um pequeno texto sobre isso, acho que saiu na internet sob o título “o métodos desviante” que insiste nessa paciência da filosofia, um conceito emprestado tanto a Hegel (“a paciência do conceito”) como a Lyotard. Justamente porque o pensamento filosófico não se esgota na comprovação de sua “utilidade”, mas tateia para também pensar aquilo que ainda não foi pensado, que espera por ser reconhecido e conhecido, por ser nomeado, ele não pode- nem deve, me parece – obedecer a essa pressão sem criticá-la. Se tiver que obedecer, quando um jovem colega presta concurso, por exemplo, que o faça para “salvar sua pele”, mas não confunda essa atitude com atitude científica! Falo da filosofia, mas imagino que literatura e outras disciplinas ditas de “ciências humanas” também poderiam concordar com essa crítica. E também das ciências ditas “hard”.

Há alguns anos, o psicanalista Renato Mezan publicou um artigo na Folha de São Paulo, intitulado “O fetiche da quantidade”1, no qual conta como, em 1994, um professor de Princeton, Andrew Wiles, conseguiu, mais de três séculos depois de sua formulação, demonstrar um teorema de um matemático francês, o “théorème de Fermat”, cuja demonstração tinha ficado perdida. A universidade de Princeton ofereceu ao pesquisador tanto tempo quanto precisava para se consagrar exclusivamente a esta pesquisa. Ele encontrou a solução depois de sete anos… Sem artigo nem relatório intermediários, portanto!

Será que não é mais possível escrever um belo livro (vamos dizer em seis ou sete anos) porque deve-se redigir três artigos por ano ou mesmo por semestre? E que não se possa “perder tempo” com uma classe até os alunos todos despertarem e começar a pensar por si mesmos? Não é preciso saber de filosofia ou de literatura para saber o quanto a errância e a “perda” de tempo são imprescindíveis para inventividade no pensar.

A senhora faz uma crítica dura a Agamben, na nota da página 55. Fala que a aproximação entre a noção de “mera vida” e “vida nua” pode ter sido apressada. Essa relação é angular no principal projeto de Agamben, que é o seu “Homo sacer”. Essa oposição já foi discutida anteriormente? A senhora gostaria de se estender um pouco mais sobre essa crítica?

Queira desculpar, mas acho minha crítica uma observação filológica bem educada, nenhuma crítica tão dura assim. E completo dizendo que aprecio muito o pensamento de Giorgio Agamben, em particular toda discussão sobre poder e exclusão no Homo sacer. Agora, Agamben cita muitas fontes, de Heidegger a Benjamin passando por Carl Schmitt ou Foucault, sem falar em sua erudição teológica e filosófica mais ampla. Então, muitas vezes, alguns conceitos devem ser retificados, o que tento fazer ao distinguir o conceito de “mera vida” em Benjamin (“blosses Leben”) do contexto da bio-política. Aqui no Brasil, pouca gente ousa simplesmente questionar os textos de Agamben. Ele mereceria uma leitura mais crítica. Por exemplo, na Alemanha, Sigrid Weigel (no livro Die Kreatur, das Heilige, die Bilder, Fischer Verlag, 2008) ou na França Georges Didi-Huberman (no livro Survivance des lucioles, Editions de Minuit, 2009) têm críticas muito mais virulentas!

A centralidade da escrita no pensamento filosófico é um dos temas que atravessa vários textos, e mais centralmente “Do conceito de Darstellung em Walter Benjamin (ou verdade e beleza)”.  Essa perspectiva coloca o pensamento filosófico muito próximo da poesia, como também aproxima a poesia da filosofia. Isso parece soar muito intimidador para quem está começando a escrever, ou tem um projeto de uma tese acadêmica pela frente, não é? Gostaria de falar da sua experiência pessoal com a escrita?

Mais uma questão que se desdobra em muitas! As relações entre poesia ou literatura e filosofia são estreitas e complicadas desde de início, desde que Platão nomeia um outro gênero de logos, de discurso, de “filosofia’ em oposição às outras práticas discursivas de sua época, como a poesia de Homero e a retórica. Essa oposição é difícil porque pressupõe uma força argumentativa e lógica que consiga convencer pelo reconhecimento da verdade, em oposição à força da beleza poética e retórica. Ao mesmo tempo, Platão por assim dizer inventa um novo gênero literário, o diálogo, mesmo que seja um diálogo filosófico, ele também lança mão da beleza literária e de histórias míticas para convencer seu interlocutor, no caminho comum da busca do conhecimento. Mesma ambiguidade em relação à escrita: se ele parece condená-la (na “Carta VII” e no fim do Fedro), ele no entanto é um dos maiores escritores que já existiu e nos deixou uma obra escrita – os Diálogos, justamente – maravilhosa.

Acho que é um preconceito filosófico comum pensar que a filosofia não trabalha com estilo ou gênero literário, mas que seria um discurso transparente que “diz a verdade”. Há vários gêneros literários na filosofia, inconfundíveis entre si, e sempre ligados àquilo que tentam dizer: diálogo, tratado, ensaio, meditação, discurso metodológico, sistema…

Não são somente os escritores (literários) que dão importância à sua escrita no sentido de um cuidado com palavras, metáforas, música ou ritmo do texto. Vejam como escrevem um Sérgio Buarque de Holanda ou um Gilberto Freyre, o “estilo” não é nunca indiferente, nem a apresentação dos problemas neutra. Justamente porque nossa linguagem – e mais ainda nossa escrita – é limitada, simplesmente porque nunca consegue realmente “dizer o real”, devemos cuidar dela cada vez mais, explorar seus recursos e seus limites.

Não acho isso intimidante, pelo contrário: tira dos ombros dos pesquisadores a fantasia de ter que alcançar o único verdadeiro através das suas palavras. A limitação da linguagem e da escrita obriga a inventar cada vez mais palavras, mais figuras, mais argumentos, mais textos para dizer melhor. Se tivéssemos uma linguagem perfeita, não precisaríamos mais nem falar nem escrever!

Tive na minha infância um aprendizado das palavras e da escrita (com meu pai, acho, nem consigo lembrar) que desde do início era ligado à beleza (da poesia) e à comunicação. Tive sorte porque nunca percebi na escrita esse instrumento de disciplina e de opressão que um aprendizado mais tradicional pode significar. Leitura e livros foram momentos de descoberta da amplitude do mundo. Então, sempre gostei de escrever, acho que muitos gostariam muito mais de escrever se houvesse esse aprendizado da linguagem, da escrita, da leitura como um aprendizado da múltipla beleza do mundo e de sua possível tradução em palavras.

A senhora acompanha a produção do pesquisador Jonathan Crary? Em seu Suspensões da percepção: atenção, espetáculo e cultura(2013) ele observa, em oposição a Benjamin, que  a distração moderna não seria uma ruptura com “tipos estáveis e naturais de percepção contínua” (p. 74), mas um efeito da tentativa de produzir estados não distraídos em sujeitos. Ainda que Benjamin tenha sugerido que “disrupção inerente ao choque e à distração traz a possibilidade de novos modos de percepção” ( p. 74), o mesmo Benjamin, segundo Crary, “sempre pressupunha uma dualidade fundamental, em que a contemplação absorta, purificada dos estímulos excessivos da modernidade, era o outro termo”. (p. 74) Para Crary distração e concentração não se estabelecem como polos opostos, mas como um continuum “no qual as duas fluem incessantemente de uma para outra, como parte de um campo social em que os mesmos imperativos e forças incitam ambas”.

Penso que na página 110 de Limiar, aura e rememoraçãoa senhora atinge Crary em cheio ao afirmar que o impulso lúdico e mimético não seria definido como uma falta de atenção, mas sim como outro desempenho da atenção.  A senhora concorda com essa leitura?

Caro Paulo, concordo, sim, com sua leitura…, mas lhe confesso que não conheço Jonathan Crary, nunca li nenhuma linha dele. Portanto, agradeço muito pela indicação, mas não posso responder mais a respeito!

Quando se deu seu primeiro contato com Benjamin? Gostaria de falar sobre essas primeiras leituras? Quais as passagens de Benjamin continuam hoje enigmáticas e centrais para a senhora?

O primeiro texto de W. Benjamin que li foram as teses “Sobre o conceito de história”, último escrito de Benjamin datado de 1939/1940.. Isso foi num curso de alemão medieval, em Genebra, nos anos 1970. Benjamin foi redescoberto pela esquerda, em particular pelo movimento estudantil, nestes anos justamente porque ele era um pensador ligado a Marx, mas não dogmático, nunca foi do Partido Comunista, já tinha percebido os problemas do stalinismo quando foi a Moscou visitar sua amiga Asja Lacis. Ele tinha uma concepção “materialista” (como ele dizia) da história, mas ele questionou profundamente a crença dogmática no progresso, tão importante e tão paralisante (segundo ele) na social-democracia e nos partidos comunistas ortodoxos. A vitória do nazismo exigia outra reflexão que essa “fé” cega no progresso, essa visão determinista da história.

No rastro do movimento estudantil e das críticas crescentes aos partidos comunistas oficiais (em particular depois do sufoco da “primavera tcheca” em agosto de 1968 pelas tropas da União Soviética), um pensador como Benjamin ajudava (e ainda ajuda!) a pensar história e historiografia em oposição à historiografia “dominante’, isto é, dos dominadores, sem, no entanto, cair num falso otimismo progressista.

O professor de língua e literatura alemã medieval, Karl Bertau, estava escrevendo uma obra de historiografia da Idade Média, justamente. Lemos muitos teóricos de esquerda, principalmente Walter Benjamin, nos perguntando sobre essa atividade: como o historiador do presente escreve e reescreve a história do passado? Em vista de que futuro? Com que tipo de lembrança? Qual é a memória, qual é a transmissão que sustenta sua escrita? Questões candentes até hoje e que são também altamente políticas – como percebemos, por exemplo, com o relatório da Comissão Nacional da Verdade e a discussão desse documento.

Continuo achando as “teses” um texto fantástico, mas difícil. Participei do Benjamin-Handbuch (Metzler Verlag, 2006)com um ensaio sobre as “teses”, a convite de colegas alemães, mas não sei se compreendi realmente esse texto fulgurante e obscuro, que, aliás, Benjamin nunca pensou em publicar tal qual, era muito mais um esboço que escreveu para si mesmo, no limiar da Segunda Guerra, antes de desistir de viver. Também outros textos, como A origem do drama barroco alemão, também continuam um “pedreira” para mim, apesar de várias leituras.

Esse meu último livro é uma tentativa de esclarecimento e de questionamento depois de vários anos de estudo e ensino. Ele também significa para mim uma homenagem a todos que, aqui no Brasil, tentam lembrar o passado, cuidar da memória dos mortos e desaparecidos, e afirmar que a história pode ser outra.

Curso de jornalismo para quê?

Alguns pontos elencados pelo professor Eduardo Meditsch sobre a crise do jornalismo, que provoca (ou deveria provocar) uma atenção maior dos cursos para o estudo específico do Jornalismo e de suas complexidades e fenômenos:

“O jornalismo não está conseguindo chegar nas populações mais jovens. A idade média do público das TVs all news nos EUA é de 60 anos. Isso é um fato dramático para o jornalismo. Então, ou o jornalismo muda, ou morre de velho, junto com seu público. É fundamental que as escolas desenvolvam pesquisas no sentido de renovar as linguagens, renovar os enfoques, serem criativas no sentido de perceber como levar a informação importante que todos precisam saber para poderem atuar na cidadania de uma forma que seja mais atraente para os mais jovens”

Vale a pena assistir à aula inaugural do professor ministrada na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

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Universidade para quê?

Folha de S. Paulo/Opinião

ODED GRAJEW – As universidades brasileiras reúnem em seu corpo docente e discente (professores, alunos e pesquisadores) uma boa parte dos talentos de nossa sociedade.

O conhecimento acadêmico se espalha em inúmeras áreas: saúde, educação, habitação, transporte, economia, ciência em geral, produção, administração pública e privada, direito público e privado, urbanismo, entre outros.

Muitas dessas universidades têm parcerias internacionais que facilitam a relação entre alunos e professores. Mas essa imensa riqueza de conhecimento, esse fantástico potencial, tem contribuído em sua plenitude para melhorar o país? Acredito que não. Sabemos que uma boa parte da produção científica não ultrapassa os muros da academia.

A grande maioria de nossas lideranças políticas é constituída de pessoas com poder de mobilização, de articulação e de comunicação, o que lhes permitiu, com carisma e faro, galgar posições na hierarquia política partidária e ganhar eleições. Entretanto, ao serem eleitos, deparam-se com o desafio de colocar em prática suas propostas.

A formação das equipes –ministros, secretários, assessores e segundo escalão– é pautada muitas vezes por acordos partidários e por compromissos assumidos com os apoiadores da campanha eleitoral. Em geral, as equipes não são constituídas por pessoas com notório saber de suas áreas.

Os baixos salários da administração pública inibem e acabam por afastar os grandes talentos, já que estes conseguem uma remuneração muito maior na iniciativa privada. Por isso, muitos administradores e dirigentes públicos enfrentam grande dificuldade para contratar gente competente.

Não é por acaso que no Brasil, país com uma das maiores cargas de impostos do mundo, as políticas públicas são, em geral, de muito baixa qualidade. Tanto é que as pessoas de maior renda recorrem a serviços privados.

Os conhecimentos acumulados nas universidades brasileiras poderiam dar uma enorme contribuição para melhorar a qualidade dos nossos serviços públicos. As eleições municipais de 2016 oferecem essa oportunidade. Cada universidade poderia mobilizar seus professores, pesquisadores e alunos para produzir propostas que beneficiem suas cidades, as cidades vizinhas e até mesmo todas as cidades do país.

Essas propostas, nas áreas de educação, saúde, mobilidade, habitação, planejamento urbano, meio ambiente, cultura, esporte, energia, crianças e adolescentes, economia e tantas outras, seriam apresentadas, por meio de seminários e outras atividades, à sociedade, aos meios de comunicação e a todos candidatos e partidos.

O debate político teria, assim, maior conteúdo, fugindo da superficialidade e do casuísmo habituais. Após as eleições, as universidades poderiam, e até deveriam, se tornar parceiras dos eleitos para implementar tais ideias.

Ao colocarem a diversidade de seus ricos conhecimentos a serviço da sociedade, as universidades cumpririam mais amplamente a missão primordial de serem parceiras na construção de um país melhor para todos.
A eleição deste ano é uma ótima oportunidade para que o saber acadêmico se torne prática nas políticas públicas das próximas administrações municipais.

ODED GRAJEW, 71, é coordenador geral da Rede Nossa São Paulo e presidente emérito do Instituto Ethos. É idealizador do Fórum Social Mundial. Foi assessor especial do presidente da República em 2003 (governo Lula).

A falácia do currículo enxuto

Folha de S. Paulo/TENDÊNCIAS/DEBATES

Paulo Ghiraldelli

Tirar filosofia e sociologia do currículo do ensino médio para “torná-lo mais atrativo” afastará ainda mais os jovens da cultura em sua plenitude

A reforma do currículo do ensino médio anunciada por Dilma Rousseff causou apreensão. A presidente deixou nas entrelinhas, em entrevista na TV, a ideia de retirar do currículo a sociologia e a filosofia.

Quem está no trabalho com o ensino e a pesquisa sabe o bem que essas disciplinas trazem aos jovens. Os resultados podem ser mensurados, principalmente, pelo mercado de livros. A procura por obras clássicas pelos jovens aumentou. Há indicadores que mostram que devemos esse feito a essas disciplinas entre aqueles que, em seguida, chegam às universidades.

Em um país como o Brasil, esses resultados não indicam pouca coisa. Mas, e quanto ao resto do que a presidente disse? É possível enxugar o currículo do ensino médio para “torná-lo mais atrativo”?

Antes de qualquer coisa: a escola tem de ser atrativa pelo que oferece, e não pelo que não oferece! Deixar conteúdos já consagrados de fora torna a escola atrativa só para quem não quer estudar.

Não é o currículo enxuto o fator de atração de alunos para a escola básica e, muito menos, é ele que determina que os estudantes nela permaneçam. Não há pesquisa séria que mostre isso. Ao contrário, todas as pesquisas indicam que, se deixamos de lado fatores externos (renda familiar, tempo livre etc.), é a força intelectual e moral do professor que pesa na decisão do estudante em continuar na escola.

Os professores recebem algo em torno de R$ 9 por hora-aula no Brasil. É um número diminuto perto do que vale a hora de trabalho no Brasil fora do magistério, para qualquer profissão que requisita o mesmo tempo de estudo universitário.

Não é possível manter na escola os melhores mestres com esse tipo de remuneração e, se a escola pública paga mal, não estimula a particular a pagar melhor. Resultado: hoje no Brasil não há classe social que possa ver seus filhos em contato com bons mestres.

O valor da hora-aula é o determinante principal na escola brasileira. Tudo já foi tentado para melhorar essa instituição e não deu certo. Só isso ainda não foi modificado.

Metade da população não consome a cultura mais elaborada. O contato do brasileiro com a cultura letrada ainda depende demais da escola –trata-se de uma regra que também vale para a classe média tradicional.

Teatro, cinema, biblioteca e museu são visitados por estudantes enquanto estudantes. Fora da escola, até música ao vivo de qualidade é deixada de lado. As feiras do livro não são mais eventos para o leigo culto. Uma grade curricular enxuta deixará os jovens fora da cultura em sua plenitude.

A presidente Dilma escorregou. Deveria reestruturar melhor seu pensamento e sua fala.

A maior parte dos políticos brasileiros, até os que se dizem envolvidos com projetos educacionais, tendem a negligenciar a formação no âmbito do ensino médio. Desqualificam-no ao insistirem que ele dever ser “técnico”. Trata-se de um nível escolar importante e que deve ser democratizado sem que tenhamos que vê-lo pior do que já está.

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