Sobre os conceitos de jornalismo e os papéis atribuídos aos jornalistas

Nilson Lage

Tal como o direito ou a engenharia civil, o jornalismo é uma prática social que decorre da evolução da sociedade e consequente fragmentação de conhecimentos e funções da vida social. Convergem para ele duas vertentes: a dos sacerdotes e arautos que levavam a público decisões da Igreja e do Estado; e a dos aedos, menestréis ou outro nome lhes deem, que percorriam aldeias, praças e castelos contando histórias atraentes e difundindo ideias espantosas.

Ao contrário do direito e da engenharia civil, o jornalismo como conhecemos só se torna visível século e meio após a invenção da imprensa, quando a burguesia ascendente utiliza periódicos para difundir seu projeto de poder contra os estados aristocráticos europeus; disso decorreu o viés restritivo que o colocou a serviço de objetivos ideológicos definidos. Por essa circunstância histórica, o entendimento da profissão admite dois conceitos – um mais amplo; outro, datado conforme o lugar e a época.

No conceito amplo, que os críticos chamam de neutro, jornalismo é atividade de natureza técnica caracterizada por compromisso ético peculiar. O jornalista deve saber selecionar o que interessa ao público (o seu público, o público-alvo) e o que lhe é útil; buscar a associação entre essas duas qualidades, dando à informação veiculada a forma mais atraente possível; ser verdadeiro quanto aos fatos (verdade, aí, é a adequação perfeita do enunciado aos fatos) e fiel quanto às ideias de outrem que transmite ou interpreta; admitir a pluralidade de versões para o mesmo conjunto de fatos, o que é um breve contra a intolerância; e manter compromissos éticos com relação a prejuízos causados a pessoas, coletividades e instituições por informação errada ou inadequada a circunstâncias sensíveis.

Não é um tribuno ou um prócer. Como disse o repórter Joel Silveira (1918-2007), jornalista não é quem toca na banda, mas quem vê a banda passar.

Por essa concepção, o jornalismo profissional é exercido em empresas e microempresas de informação ou como atividade autônoma, mas nada impede seu exercício também em empresas em geral, instituições públicas e privadas e órgãos de governo. Em qualquer organização em que atue, o jornalista deverá empenhar-se pela mais ampla difusão dos fatos de interesses público, pela confiabilidade dos dados, relatos e análises de terceiros que divulga e pelo respeito à pluralidade de interesses que conflitam na sociedade.

O jornalista que trabalha em instituição não midiática, quer produzindo órgãos internos (home organs) ou destinados a públicos externos (news letters), quer intermediando o contato com veículos jornalísticos, deverá divulgar honestamente os fatos e os pontos de vista da instituição sem necessariamente se comprometer com eles, da mesma forma que o advogado defende seu cliente sem assumir o ônus de presumível culpa: será visto e deverá assumir-se como porta-voz, não como autor do discurso.  O limite, nesses casos, é a exceção de consciência, situação excepcional que impossibilita a relação de confiança, envolve valores religiosos, morais ou éticos de grande relevância e leva à ruptura do relacionamento profissional – em alguns casos, à delação de procedimentos julgados iníquos.

As razões da crítica e a crítica da crítica

O jornalismo encontra dificuldades específicas: toda estrutura de poder teme ser devassada e tende a resguardar mais informações do que seria necessário; enquanto para advogados o compromisso é com a lei, estabelecida previamente, o do jornalista é com pessoas cujas reações não são sempre previsíveis; o duplo comprometimento (com a fonte e o público) implica frequentes conflitos de interesse.

A discordância se revela em questões de linguagem: do ponto de vista da comunicação, carro é melhor do que viatura (de polícia) ou veículo (militar, na engenharia de tráfego); geladeira é preferível a refrigerador, negar a denegar (um mandado judicial), barriga a abdome, casa a residência, perto a próximo etc.: as primeiras de cada um desses pares são mais comuns e, portanto, exigindo menos esforço de codificação, têm entendimento mais imediato. No entanto, as corporações de ofício buscam racionalizar o processo de designação e desdenham da nomeação popular, historicamente consolidada; e a linguagem técnica, além de zelar pela precisão, atua sempre como diferencial corporativo.

A crítica do conceito amplo de jornalismo apoia-se na constatação de que todo enunciado carrega associações semânticas e emotivas que diferenciam segurança de capanga, ditador de líder, o indivíduo generosos do perdulário etc. ; ao reproduzir sem crítica discurso iníquo, o jornalista estaria também sendo iníquo (apenas se o fizesse com um discurso virtuoso, seria igualmente virtuoso).

Já a crítica da crítica, efetivada no Século XX, na fase empresarial do jornalismo, sustenta que a possibilidade da crítica está, na verdade, aberta aos gestores e acionistas das empresas e instituições, que delegam esse privilégio conforme seus valores e interesses, e não aos jornalistas individualmente, meros empregados, ainda que qualificados. A proteção corporativa e ética é vulnerável e eventualmente inexiste.

Os jornalismos militantes

Outras concepções de jornalismo atribuem ao jornalista, além das competências do ofício ou mais do que elas, o dever da militância a serviço de causas julgadas nobres; isso se aplica não apenas à opinião expressa ou interpretação dos fatos, mas a escolhas temáticas e ao próprio relato factual. Trata-se de traço peculiar, já que essa participação, própria da cidadania, não é particularmente exigida de advogados, engenheiros ou qualquer outros profissionais no exercício de suas atividades.

A partir do Século XVIII, quando a imprensa periódica surge em burgos alemães e, logo depois, em centros comerciais da Holanda e da Inglaterra, o jornalismo prosperou associado à luta pelo poder. Isso não mudou essencialmente com a derrocada da aristocracia e a adoção de uma estrutura industrial pela imprensa, no Século XIX europeu: o Estado permaneceu como uma espécie de árbitro regendo o contrato social sob a hegemonia burguesa – freio, portanto, à motivação dessa classe social pelo máximo lucro, a propriedade prioritária de ideias como a de bensm, o sigilo dos negócios e nenhum controle estatal da produção e tráfego de mercadorias.

Inicialmente, o conteúdo valorizado da mídia jornalística geral compreendia temas de interesse geral dos setores produtivos e burocráticos – da política à economia, do clima ao transporte, da legislação à administração pública. À medida que o jornal-empresa abriu-se à conquista de público mais amplo, acrescentaram-se ao rol outros assuntos: o esporte, o crime, a luta dos trabalhadores pela sobrevivência e por uma fatia de poder, a recreação e vida social.

Essa nova temática, com forte conotação emocional e menor compromisso com a fidelidade aos fatos, marca o importante ciclo do sensacionalismo na imprensa dos Estados Unidos, agigantando o negócio da informação. Foi como reação ao sensacionalismo (e ao desgaste da credibilidade e prestigio político das empresas) que se formularam, no início do Século XX, na América, regras formais buscando tornar as notícias representações tão perfeitas quanto possível de flagrantes da realidade.

Os processos então adotados conseguiram por algumas décadas sustentar a busca, que logo se mostraria utópica do enunciado jornalístico como conjunto de representações voltadas, à maneira das ciências da natureza, para os objetivos noticiados e formuladas conforme os códigos e valores presumíveis do público.

A empresa de mídia

Na prática, a empresa midiática típica é um empreendimento de porte médio ou grande porte, dependente de publicidade, tecnologia e financiamento – quer dizer, do comércio, da indústria e dos bancos. Nela, o compromisso com a informação pública precisa compor-se, em maior ou menor grau, com a defesa dos interesses gerais dessa clientela privilegiada. Da composição resulta a representação do jornalismo como poder moderador ou quarto poder (os três outros: legislativo, executivo e judiciário).

O Estado – os governos, na verdade – são o alvo preferencial da atividade investigativa dos veículos da mídia. Não significa que esta ou aquela empresa, conjunto, organização de empresas ou entidade não estatal seja eventualmente poupada de críticas. O fenômeno, aí, é outro: o compromisso com o sistema não se estende automaticamente a seus componentes. É como a revista especializada em turismo ou automóveis que aponta eventualmente defeitos no atendimento dos hotéis ou em veículos recém-lançados no mercado. O projeto, aí, não é hospedagem ou marca; é cultivar a necessidade do passeio e das férias, a paixão e a ilusão de poder que o automóvel propicia; isso exige credibilidade, que se conquista demonstrando isenção.

O jornal-empresa – e a mídia comercial em geral – deve, por definição, dar conta das contradições das sociedades que se revelam nos setores produtivos e se ampliam na era do consumo, opondo, por exemplo, a área de finanças à área produtiva, acionistas e gestores, trabalhadores e patrões, grandes empreendimentos e pequenos empresários etc. Tem também que lidar com o comportamento das categorias profissionais organizadas, diferenças culturais e tudo mais que cria conflitos e, assim, gera notícias.

A amplitude e natureza com que cumpre essas funções a que se propõe, o grau de ideologização que reveste sua cobertura, variam conforme o clima político da época e o público a que o veículo ou editoria se destina (trabalhadores, empresários e gerentes, consumidores domésticos etc.). Nas últimas décadas, os estados nacionais passaram a ceder parcelas crescente de seu poder a corporações financeiras e organismos gestores multinacionais que, muitas vezes, decidem em última instância; esse é um problema suplementar das redes e empresas maiores do setor, fortemente dependentes do capital globalizado.

O jornalismo como discurso contraditório

A tese do jornalismo voltado para a defesa intransigente de um causa vai além do fenômeno histórico que a originou e da consequente instrumentação pelos agentes econômicos. A aristocracia, originalmente, e, logo em seguida, organizações revolucionárias de base declaradamente proletária e movimentos culturais contestadores cuidaram de copiar o espírito do jornalismo combativo e visionário do pós-renascimento.

As dificuldades, aí, são de outra ordem. Vão desde a censura expressa à desqualificação das mensagens; da falta de estrutura para a captação de informação primária (que torna os veículos meros construtores de versões sob e fatos já noticiados, com orientação geralmente previsível) até a indisposição da liderança de grupos militantes (como sindicatos e partidos políticos) para os discursos referenciais próprios da objetividade formal dos veículos institucionais e da mídia empresarial.

Talvez o problema maior, no entanto, seja este: os indivíduos formulam seus juízos sobre o mundo, a sociedade e natureza com base na ideologia dominante em sua sociedade, que penetra e determina percepções e possibilidades de enunciação. Ora, essa ideologia, é essencialmente a da classe dominante ou uma composição elaborada para encobrir paradoxos no seio da classe dominante; por definição, não contempla os objetivos perseguidos pela mídia contraditória (nos planos ético, moral, religioso etc) ou revolucionária no plano político.

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Sobre Antonio S. Silva
Jornalista, mestre pela PUC/SP, doutor pela UnB e professor da (UFMT). Importante o diálogo para construir um país melhor.

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