Música caipira na universidade

Jornal O Popular

Taynara Borges

Matéria editada da origem

“A viola cria uma aura ao redor”

 

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Ivan Vilela é uma das maiores autoridades em viola e cultura caipira no País. Atualmente é professor da Faculdade de Música da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (CMU-ECA-USP), onde leciona a disciplina História da Música Popular Brasileira, Percepção Musical e Viola Caipira. Historiador, ele é doutor em Psicologia Social pela USP e mestre em Composição pela Unicamp.

No fazer musical já teve seu trabalho indicado e agraciado pelo Prêmio da Música Brasileira, Prêmio Ibac de Cultura Popular Brasileira, Prêmio Rival-BR, Prêmio Sharp, dentre muitos outros. Desde 1996 realiza concertos e conferências em salas de espetáculos e universidades da Espanha, França, Inglaterra, Itália, Bélgica e Portugal. No Brasil, foi criador, diretor e arranjador da Orquestra Filarmônica de Violas, em Campinas (SP), compôs a Ópera Caipira Cheiro de Mato e de Chão e ainda tem no currículo mais de cem composições próprias.

“A viola guarda características antigas. As cordas duplas permitem tantas opções, que nem todas foram exploradas até hoje” Estudioso da cultura popular do Brasil, o violeiro e professor Ivan Vilela, em entrevista ao POPULAR, defende a utilização de um método nacional de ensino superior em música.

Você sempre se dedicou à cultura caipira? O que o encantou nesse universo?

Na realidade, eu sou caipira. Nasci no sul de Minas Gerais, região compreendida como caipira. Cresci vivenciando festas populares, o folclore e, de certo modo, isso já estava em mim. Já adulto, terminado o curso de Composição Musical na Unicamp, me fizeram a encomenda de compor uma ópera caipira. Foi quando me aproximei da viola, já que antes tocava violão. Até então, trabalhava com música clássica. Isso já faz 21 anos.

Existe uma linha definida que separa a música clássica da popular – da caipira, no caso?

Elas se fundem quando se trata tudo como música de qualidade. Esse distanciamento está ligado a uma dominação simbólica. “Não ouço isso porque sou culto.” Tive um aluno que, como trabalho de conclusão de curso, pegou modas de viola para fazer análise semântica e musical. E, quando colocamos no papel, as partituras eram extremamente complexas.

Nós marginalizamos a cultura caipira no Brasil. Há pessoas que torcem o nariz. A que atribui esse comportamento?

Resgatando a história da música popular brasileira, vemos que o problema é que tudo era concentrado no Rio de Janeiro. As rádios, as apresentações. Por isso, os sambistas foram pra lá. Criou-se um padrão do que seria a música ideal no Brasil. Tudo o que foi produzido ao redor é visto de maneira depreciativa. Tem a ver com o êxodo rural. É um estigma sócio-histórico, um preconceito desconhecido. Ninguém sabe porque não gosta.

A viola é um instrumento de origem europeia, não é isso? Por que fazemos essa associação direta com a música caipira no Brasil? Quando ela recebeu essa conotação?

Ela tem origem portuguesa. E isso é curioso porque, primeiro, a viola chegou na cidade. Ela já era utilizada na catequese, era utilizada por catequizadores. Essa associação se dá pelas gravações da música caipira em 1929, resquícios da cultura bandeirante, de onde os bandeirantes se instalaram, que é a região que consome música caipira.

A viola parece ser um instrumento mágico. Ela assume formas que vão do clássico ao caipira…

Ela tem sim uma sonoridade muito interessante. Seus sons harmônicos, quando tocam, criam uma aura ao redor. A viola guarda características antigas. As cordas duplas permitem tantas opções, que nem todas foram exploradas até hoje…

Você propôs a criação de um curso superior de música que utilizasse uma metodologia brasileira de ensino, algo inédito no Brasil. Isso é importante para a construção de uma identidade? Qual a real importância de uma proposta como essa?

A principal importância é que, por trás da palavra metodologia, está a palavra cultura. Quando se faz um método, se está criando uma abordagem cultural, uma maneira de olhar para o objeto. Ao utilizar a metodologia europeia, você aprende a olhar o Brasil pelo olhar europeu. No Brasil se usa a metodologia dos Estados Unidos, uma escola muito boa para ensinar música americana, e não a brasileira. É uma metodologia que não contempla nossa infinidade de ritmos, que é nosso grande trunfo. O que queremos é fazer com que passemos a olhar nossa cultura a partir de uma lente nossa. Em seis anos de composição musical, nunca vi um compositor brasileiro. Na USP estamos mudando isso. Antes tinha só no último semestre a disciplina chamada Folclore Brasileiro. O que, para não dizer que é um absurdo, é um disparate. Implementamos agora a História da Música Popular Brasileira, que era optativa e os alunos pediram para entrar na grade obrigatória.

Você tem uma ligação com Goiás: já gravou um disco com Andréa Teixeira em que arranjou canções de 12 compositores goianos…

Tenho amigos aí e gosto muito de Goiânia. Toquei na cidade pela primeira vez em 1986, e desde então nunca me afastei. Como mineiro temos uma aproximação muito grande. E pretendo estreitar os laços ainda mais.

Qual o repertório da sua apresentação neste fim de semana por aqui?

Com a Andréa serão as canções que fizemos juntos. Sozinho, pretendo mesclar composições minhas junto a coisas que já gravei, como Chico Buarque, Milton Nascimento, Beatles. Na verdade, vou sentir o público e tocar o que surgir na hora.

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Sobre Antonio S. Silva
Jornalista, mestre pela PUC/SP, doutor pela UnB e professor da (UFMT). Importante o diálogo para construir um país melhor.

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