Revista Cult » A estrela nômade

Revista Cult » A estrela nômade.

Edgar Morin diz que a esquerda precisa “regenerar seu pensamento” e fala de seu gosto por seriados e telenovelas
Publicado em 06 de maio de 2011

Ernane Guimarães Neto

O Brasil pode desenvolver sua própria democracia, diminuir suas enormes desigualdades sociais, combater a corrupção e preservar seus tesouros culturais, conceber a Amazônia como um tesouro, em vez de destruí-la com plantações de soja. Pode unir a visão ecológica de Marina Silva – ex-ministra do Meio Ambiente – a uma visão política que consista na modernização, com base no melhor da civilização ocidental, preservando sua própria cultura”, diz Morin.

Seus caminhos o levam frequentemente ao Rio de Janeiro, onde a CULT o encontrou em março passado. Ele idealizou o Encontro Internacional para um Pensamento do Sul, evento de três dias que a sede do Departamento Nacional do Sesc, na capital fluminense, abrigou.

Morin pensa em comemorar por aqui seus 90 anos, que completa em 8 de julho – e brindados com caipirinha. “É um ritual sagrado para mim”, brinca.

Esse nomadismo pós-moderno é uma marca definidora da atitude de Morin, que pula de um campo do saber a outro (é reconhecido como filósofo, antropólogo e sociólogo), de país a país (diz que quer transportar suas descobertas educacionais para o Marrocos, país que, com o Brasil, é um dos focos de seu interesse no momento) e, no evento em que era a estrela, de sala em sala para acompanhar os trabalhos.


Celular em punho

Em 1957, lançou As Estrelas, em que discute o papel mercadológico das celebridades e o culto que se forma em torno delas. À época, já lançara o clássico O Homem e a Morte (Imago), mas só publicaria o primeiro volume de sua obra maior, O Método (Sulina), mais de 20 anos depois.

Hoje alguns discípulos usam seus conceitos contra ele próprio, insinuando que não cumpre o programa, esquece da entrevista agendada, impõe seu império a seus seguidores – em suma, seria uma “estrela”.

Gravitando em torno de Morin, que surge perambulando, telefone celular no ouvido, a reportagem aprende muito sobre seu método complexo.

Ele entra na sala onde se discute educação e senta-se para ler o documento em revisão, debatido em português, espanhol ou outra língua neolatina. Enquanto os pedagogos e demais convidados do evento – mais de 40, vindos de todo o mundo – discutem se “rever a estrutura de poder dos sistemas educativos e das instituições educacionais” é uma formulação representativa das necessidades do pensamento do Sul, Morin deixa a sala. Seu método de trabalho é um fluxo contínuo.

“Tentei compreender que os diferentes “Sul” – porque “o Sul” é uma noção ideal – têm os mesmos problemas de dominação e emancipação, de preservação de seu patrimônio cultural. Esses países diferentes finalmente têm elaborado algo que converge num pensamento do Sul. Essa visão não está feita, por isso ‘para um pensamento do Sul’. Ela se opõe à visão homogeneizante do Norte, dá uma resposta a ela, de certa forma: a ideia não é uma visão fechada, mas aberta, que pegue o melhor do Norte e proteja o melhor do Sul”, resume, depois de se ajeitar na cadeira para ficar com o ouvido esquerdo (o do aparelho para a audição) mais próximo do entrevistador.

Em sua fala, aparece de maneira viva o conceito de complexidade: sua pretensão é a de extrair o melhor do paradoxo entre sistemas aparentemente antagônicos. Nesse sentido, diz, os países em desenvolvimento têm importância justamente por poderem mostrar novas possibilidades políticas, sociais e econômicas – e sem a necessidade de um rompimento completo com as forças hegemônicas.

“O papel dos países do Sul é o de fazer uma nova civilização com base em uma simbiose entre os aspectos positivos da modernidade ocidental e os aspectos positivos das civilizações tradicionais.E não serem submetidos ao processo que desintegrou suas sociedades, que trouxe vantagens materiais, mas também muita pobreza. Há uma crise de confiança nos processos de globalização; seu papel é propor alternativas.”

“Pós-marxista”

E, rejeitando a simplificação, desconfia do acrônimo Bric (Brasil, Rússia, Índia e China): “Quando falamos de dinheiro, há aspectos em comum. Mas a China é um país escravagista até o presente, juntando escravidão capitalista e aquela que restou do Estado ditatorial. Já o Brasil, felizmente, não tem esse sistema e não pode imitar a China”.

Este marxista hegeliano – “pós- -marxista! Marx é uma estrela dentro de uma constelação”, corrige –, que militou no Partido Comunista e participou da Resistência francesa na Segunda Guerra, não dá uma resposta simples quando pergunto se o partido de Lula e Dilma conseguiu uma boa “solução dialética” para o conflito entre ideologia marxista e neoliberalismo econômico.

“Sobre Lula – pois Dilma ainda não sei bem o que fará –, ele conseguiu atingir uma política social, sobretudo com o Bolsa Família, mas não tentou fazer uma reforma agrária, que teria uma vantagem restauradora. Foi capaz de evitar que a população pobre do Nordeste continuasse a aumentar. Há sucesso e há carências. A política de Lula tentou chegar à essência de certa unidade da América Latina em relação ao poder hegemônico dos EUA. E Lula ajudou a salvar o presidente boliviano,
Evo Morales, de um golpe de Estado.

Mesmo eu não estando de acordo com [as negociações diplomáticas com] a Turquia e o Irã, vejo algo de positivo no fato de que são nações do Sul decidindo ao largo do Ocidente [tradicional].”

Mas seus interesses não se restringem ao Sul. Morin lançou em janeiro na França o livro La Voie (A Via, editora Fayard), em que discute os caminhos que o planeta pode tomar em termos econômicos, políticos ou ecológicos, e quão perto estamos do “abismo”.

O autor lamenta que, apesar de ser muito comentado em seu país, esse livro (e sua obra em geral) não penetrou nos movimentos políticos de esquerda.

“A esquerda não percebeu que é preciso regenerar seu pensamento. Ela precisa retomar suas fontes: libertárias, comunistas e socialistas. São três aspectos. Libertário para o indivíduo, socialista para reformar a sociedade, e comunista para criar uma comunidade. Falei à esquerda, mas falei no deserto.”

A via trilhada pelo sociólogo judeu, nascido Edgar Nahoum, não tem mesmo sido a da maioria dos franceses. No dia da entrevista, um dos temas mais discutidos da política francesa era a liderança de Marine Le Pen, líder do partido de extrema direita Frente Nacional, em pesquisas de opinião para as eleições presidenciais de 2012.

“Isso ocorre primeiramente porque há uma crise do pensamento de esquerda, uma crise da política esquerdista, um vazio. Em segundo lugar, a política de direita do presidente Sarkozy legitimou todos os temores nacionalistas e racistas desenvolvidos pela política da Frente Nacional. Notadamente, Sarkozy estigmatizou os ciganos.”

Marine é filha de Jean-Marie Le Pen, o líder ultraconservador que, representando o partido Frente Nacional, chegou ao segundo turno das eleições presidenciais em 2002.

Tecnologias

“Ela tem uma habilidade política que seu pai não teve. Ele não era antiárabe, mas sobretudo antissemita. Mas era um antissemitismo que não podia se exprimir bem, já que a lei francesa o proíbe. Marine Le Pen compreendeu que era preciso ser antimuçulmana e antiárabe e, ao contrário, dizer aos judeus que a exterminação nazista foi uma barbárie. Portanto, no sentido da regressão política geral que ocorre na Europa, ela é muito mais perigosa, pois pode ganhar uma parte importante da opinião. Metade dos franceses votou contra a [ratifi cação da Constituição da] Europa. Não digo que ela vá ganhar esses 50%, mas ela representa o nacionalismo que diz que as difi culdades econômicas da França vêm da Europa.”

A entrevista é interrompida por mais uma chamada internacional. Morin não larga o celular. Acompanha atentamente o papel da tecnologia na transformação político-cultural contemporânea:

“Em países como Tunísia e Egito, a oposição estava desintegrada por um poder tirânico. Não havia uma oposição política para se manifestar; havia a ideia superficial de que o povo estava submisso a esse regime. O que se revelou foi que a juventude trazia um fermento de revolta e, se esse fermento deveria se manifestar para levar consigo as outras gerações, seria, efetivamente, com a internet, a comunicação por Twitter, e-mail, celular…”

Mais uma vez, ele evita simplifi car seu veredicto sobre o papel da tecnologia, lembrando que as telecomunicações dão uma nova importância à velha guerra de informação. “O poder reage; os egípcios, por exemplo, tentaram restringir a internet”. Um caso mais extremo é exemplificado pela Líbia: “O que fez, por exemplo, o regime de Gaddafi ? Utilizou mensagens SMS falsas para desencorajar os manifestantes.”

Morin também vê como a web pode substituir as bibliotecas: “A vantagem da internet é ser enciclopédica e podermos buscar as informações que lá estão. Da mesma forma, quando você quer uma música, você extrai da internet e a salva em disco. Assim, a internet é um meio”.

Sem classificações
A era da internet facilita outra coisa para esse intelectual transdisciplinar: a estrutura de rede, organizada sem hierarquia nem classificações estanques, alivia o peso de ser enquadrado nesta ou naquela especialidade. Ele pode ser sociólogo e historiador ao mesmo tempo; os livros que escreveu não precisam mais ficar todos na mesma estante.

“Sofri por causa das classifi cações. Para mim, uma realidade humana é histórica, sociológica, psicológica, econômica etc. A classificação fechada é inútil e impede o verdadeiro conhecimento.”

Aproveitando as demandas dessa mesma era da informação, não teria a oferecer uma lista de livros obrigatórios? “Certamente comecei a fazer uma, mas não sei quando parei. Quando me separei de minha primeira mulher [em 1970], levei dez livros ao deixar o apartamento. Não lembro quais, mas não mais que dez livros.”

Quanto à sua lista de livros a ler, Morin prefere citar a releitura de Dostoiévski em novas traduções.

“É interessante que agora a literatura mundial se torna acessível nas grandes línguas. Na França do século 20, por exemplo, o que havia traduzido eram os romances ingleses, alguns autores de língua alemã – e isso era tudo. Agora conhecemos a literatura dos países europeus do Leste (é claro que havia alguma literatura russa, mas agora há também literatura sérvia, por exemplo), japonesa, chinesa, latino-americana. Há o romance africano, também; temos a capacidade de conhecer o mundo por meio de livros, romances e filmes, o que é uma experiência absolutamente necessária, pois o romance e o cinema trazem uma visão mais concreta, mais sensível.”

Na condição de diretor emérito de pesquisa do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), em Paris, Morin tem liberdade para quebrar as barreiras entre as disciplinas. Mesmo assim, ele diz não considerar o CNRS um modelo a ser exportado para países como o Brasil.

“Sua importância é a de fornecer meios técnicos e materiais para os pesquisadores. Não acho que seja um modelo, pois a visão que domina ali é ainda uma visão disciplinar. Evidentemente, tenta promover a pesquisa interdisciplinar, mas tem muitos obstáculos. Eu tive. O objetivo da pesquisa deve sero de contextualizar seu objeto, pois o conhecimento só pode ocorrer pela contextualização. Se você tem um texto e não está claro qual é seu contexto, não conseguirá lê-lo. O mesmo ocorre com objetos vivos, com objetos sociais. Nunca é tudo, o conhecimento é sempre incompleto, mas o objeto se refere a uma realidade à qual está conectado.”

Crítico de cinema desde a época em que o audiovisual não tinha o estatuto de “arte”, ele busca também ampliar os temas que podem ser trabalhados.

“A arte do cinema foi ignorada por muito tempo antes de ser reconhecida pelo mundo intelectual e pela universidade. Hoje em dia, por exemplo, o western não é mais somente um gênero cinematográfico, já produziu obras-primas. Depois a TV passou a despertar interesse, as séries televisivas começaram a ser levadas em conta, os documentários tornaram-se objetos de interesse e, evidentemente, a música popular. Não há objeto indigno. Há a arte, há obras de qualidade que podem vir de
todos os domínios.”

No recente livro de entrevistas biográficas Meu Caminho (Bertrand Brasil), fala sobre seu gosto por seriados, incluindo a teledramaturgia brasileira. Admite também um gosto por futebol. Diz não ter preferência por nenhum time, apesar de apreciar
o futebol brasileiro.

Mas não tem tempo de comentar a novela Dona Beja. Seu séquito o leva embora para almoçar, enquanto ele se protege do ar condicionado com um cachecol – caminhando e respondendo muito mais rápido do que se espera de alguém com 90 anos.

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Sobre Antonio S. Silva
Jornalista, mestre pela PUC/SP, doutor pela UnB e professor da (UFMT). Importante o diálogo para construir um país melhor.

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