>INTERCOM E O DEBATE DE IDÉIAS

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Em suma, nos grandes eventos acadêmicos, o que não pode faltar são as divergências, de fato salutares. Sem dúvidas, nem todos escrevem e lêem pelas mesmas cartilhas e isto torna estes momentos indispensáveis e fundamentais.

Imagem Luciana Machado
Prof. José Marques de Melo em palestra na abertura do evento
 

CIÊNCIA – A Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), realizada na UFG entre os dias 27 e 29, conseguiu o seu objetivo de levar conhecimento e debate científico à comunidade acadêmica (pesquisadores, professores e estudantes) do curso de comunicação social, dividido em suas habilitações: Jornalismo, Publicidade e Propaganda e Relações Públicas. O que chamou a atenção nos três dias foi a participação dos alunos de diversas instituições, não somente de capital do estado, mas de outros municípios, o que demonstra o interesse pela ciência, apesar dos signos dizerem o contrário. Evidentemente, que o número de pessoas participantes estaria aquém do desejado, entretanto, este não é um território a ser seguido por uma maioria em tempo de mercados fortes e imediatos.

Importante notar, entretanto, a busca pela ordenação de um discurso por parte de muitos intelectuais, possivelmente uma revisão às propostas de um marxismo que insiste com definições que contrariam as prerrogativas mercadológicas desse século. O ilustre professor Marques de Melo na sua abertura não deixa dúvidas quanto à importância das atividades nos laboratórios nas faculdades de jornalismo, considerando os anseios dos estudantes em buscar rapidamente o mercado ao termino do curso, como tem ressaltado o pensador em outros momentos, nem todos serão pesquisadores. Desta vez, citou a sua experiência própria de um aluno que não teve a experiência enquanto graduando dos laboratórios que, segundo ele, aproxima o futuro profissional com as lidas práticas, eficientemente.

Em uma análise, com ênfase na sua discussão histórica do jornalismo com a habilidade que lhe é peculiar Melo retratou a televisão, onde destacou Assis Chateaubriand (Diários Associados) e Roberto Marinho (Rede Globo), duas personalidades elogiadas pelos feitos à comunicação brasileira, mas ao mesmo tempo contestadas ante as suas maneiras pouco éticas de tratar a informação. O primeiro, durante sua existência profissional usou métodos com pouca lisura para tratar amigos e inimigos, inclusive chantageando empresários para obter recursos e formar o seu conglomerado, o maior da sua época, sem concorrência, além de seus textos que reverberavam interesses particulares, sobretudo na política, em detrimento da coletividade.

O segundo, por sua vez, é sabido a sua proximidade com os governos autoritários, a iniciar com o grande escândalo Globo Times Life, no início da década de 60, numa estratégia que deu certo de burlar as leis vigentes para obter vultosos recursos da empresa estadunidense, o que permitiu a Rede Globo torna-se o que é hoje, um grande conglomerado das comunicações. Importante destacar que não houve qualquer sanção devido ao apoio recebido pelos militares quando foi julgada pelo Congresso Nacional. Para tanto, leu pela cartilha dos governos autoritários que exterminou brasileiros contrários ao regime, inclusive jornalistas. O apoio do conglomerado aos militares durou até o último instante de sua derrocada em 1985.

Imagem de Luciana Machado
 Prof.  Nélia Del Bianco (UnB) discute as  mídias de  hoje.

O pensamento dos funcionalistas americanos, reproduzido pelo espanhol Ortega y Gasset, citado por Melo na abertura do evento, que tem uma visão de uma sociedade de massa, por vezes gera contestação e pode arremeter a imaginar a existência de indivíduos desarticulados e alienados, e para tanto se deve adequar o jornalismo, por exemplo, a esta proposta, de maneira a promover o fluxo de informação que permita a sociedade se formar conforme um sistema estabelecido. Deste modo, a mudança seria difícil e complexa diante de uma sociedade que pouco pensa e segue rumos estabelecidos pelos comunicadores, guiados por uma lógica, neste contexto, de mercado, a essência da modernidade. Conforme Gasset, no livro “A Rebelião das Massas” as minorias são indivíduos ou grupos de indivíduos especialmente qualificados. A massa é o conjunto de pessoas não especialmente qualificadas. Não se entenda, pois, por massas só nem principalmente “as massas operárias”. Massa é “o homem médio”.

Em suma, nos grandes eventos acadêmicos, o que não pode faltar são as divergências, de fato salutares. Sem dúvidas, nem todos escrevem e lêem pelas mesmas cartilhas e isto torna estes momentos indispensáveis e fundamentais.

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Sobre Antonio S. Silva
Jornalista, mestre pela PUC/SP, doutor pela UnB e professor da (UFMT). Importante o diálogo para construir um país melhor.

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